sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Coletânea [029]

020. Cortesia e/ou descortesia linguística ao telefone.


«Todo o cuidado é pouco com os casais separados.»
[Conversa ao telefone entre um casal recentemente separado, onde se encontram vários atos discursivo-textuais corteses (favoráveis à face positiva e/ou negativa) e sobretudo descorteses (lesivos ou ameaçadores das mesmas faces) em relação a cada um dos interlocutores ou interactantes (falar é agir). Trata-se do relato de uma conversa romanesca, fictícia portanto. Todavia, convirá recordar que tais interações verbais têm como modelo de realização, nas ficções, os diálogos autênticos, consoante os contextos e os cotextos em que ocorrem e desenvolvem, e por isso a eles adequados.]

[…] Artur paz semedo olhou a página do livro [l’espoir de andré malraux], viu os operários fuzilados, os morteiros inutilizados e, sem mais hesitação, voltou a marcar, desta vez até ao fim. O telefone deu três sinais e ela [felícia] respondeu, Estou, Sou eu, o artur, Já sabia, vi aqui o teu número, Desculpa vir ligar-te a esta hora, Ainda não é tarde, Aconteceu-me uma coisa de que gostaria de falar, Alguma problema, perguntou ela, Problema, não direi, mas estou com o espírito confuso, Se isso é por causa de alguma mulher que acabaste de conhecer, desejo-te as maiores felicidades, Qual mulher, qual nada, tenho coisas mais importantes em que pensar, Olha que seria digna de exame essa tua preocupação, pelo menos assim me parece, de quereres que acredite que não tens andado com ninguém depois de eu ter saído de casa, Ande ou não ande, não é da tua conta, não te diz respeito, Muito bem, explica-me então porque tens a cabecinha confusa, Há uma semana fui à cinemateca para ver um filme chamado l’espoir, Também o vi, estive lá anteontem, É uma história comovedora, sobretudo aquela descida da serra de teruel, Custa a segurar as lágrimas, é certo, Eu confesso que chorei, disse artur paz semedo, Já to disse, também eu, disse felícia. Houve um silêncio. Podia-se pensar que estavam contentes por terem partilhado uma emoção tão forte, quem sabe se por coincidência sentados na mesma cadeira do cinema, mas nunca o reconheceriam, fazê-lo seria dar uma mostra de debilidade sentimental de que o outro poderia vir a aproveitar-se. Todo o cuidado é pouco com os casais separados. Afinal, perguntou felícia, que tinhas tu para me contar, Depois do filme, achei que devia ler o livro deste Malraux, mas em má hora o fiz, Porquê, Já perto do fim há uma referência a uns operários que foram fuzilados em milão por terem sabotado obuses, E depois, Parece-te mal, perguntou ele. Nem mal nem bem, só me parece justo que eles o tivessem feito, Justo, justo, escandalizou-se artur paz semedo, fazendo vibrar de indignação a membrana interior do aparelho, Sim, não só justo, como necessário, uma vez que estavam contra a guerra, Claro, e agora estão mortos, A gente de alguma coisa tem de morrer, Fica-te mal o cinismo, aliás não me admira, sempre foste como uma pedra de gelo, Tu, sim, que és cínico ao exibir essa falsa virtude ofendida, e, quanto à pedra de gelo, peço meças, O que faço é defender o meu trabalho, graças ao qual pudeste viver uns quantos anos, Realmente, és um cavalheiro, se ainda não te havia agradecido a caridade, disse felícia, agradeço-ta agora, Deveria saber que iria arrepender-me de ter telefonado, Podes cortar a ligação quando quiseres, mas já agora peço-te que me dês tempo para contar-te uma história parecida que com certeza não conheces, é um minuto, não preciso de mais, Estou a ouvir, Li em tempos, não recordo onde nem exatamente quando, que um caso idêntico sucedeu na mesma guerra de espanha, um obus que não explodiu tinha dentro um papel escrito em português que dizia Esta bomba não rebentará, Isso deve ter sido obra do pessoal da fábrica de braço de prata, eram todos mais ou menos comunistas, Nessa altura parece que havia poucos comunistas, E algum que não o fosse, seria anarquista, Também pode ter sido gente da tua fábrica, Não temos cá disso, Braço de parta ou braço de ouro, o gesto é idêntico, com a diferença importante de que neste caso ninguém terá sido fuzilado, ao menos que se tivesse sabido, Ao contrário do que pareces pensar, não reclamo fuzilamento para os culpados de crimes como esse, mas apelo para o sentido de responsabilidade das pessoas que trabalham nas fábricas de armas, aqui ou em qualquer outro lugar, disse artur paz semedo, Sim, o mesmo tipo de responsabilidade que fez com que nunca tivesse havido uma greve nessas fábricas, Como o sabes, Teria sido notícia mundial, teria entrado na história, Não se pode discutir contigo, Pode, é o que temos estado a fazer, Devo desligar, Antes, ainda te dou uma sugestão para as horas vagas, Não tenho horas vagas, Pobre de ti, mouro de trabalho, Que sugestão é essa, Que investigues nos arquivos da empresa se nos anos da guerra civil de espanha, entre trinta e seis e trinta e nove, foram vendidos por produções belona s. a. Armamentos aos fascistas, E que ganharia eu com isso, Nada, mas aprenderias mais alguma coisa do teu trabalho e da vida, O arquivo da empresa só pode se consultado com autorização da administração, Usa a imaginação, inventa um motivo, creio que és um dos meninos bonitos desses criminosos, para alguma coisa te haverá de servir, Tenho de desligar, Já o havias dito antes, Desculpa ter-te incomodado, Pelos vistos, o incomodado és tu. Boas noites, Boas noites. Dez minutos depois o telefone de artur paz semedo tocou. Era felícia, Não procures encomendas assinadas pelo general franco, não as encontrarias, os ditadores só usam a caneta para assinar condenações à morte. E desligou antes de que ele pudesse responder.

[Saramago, J., 2014: Alabardas, alabardas / Espingardas, espingardas.
Porto: Porto Editora; pp. 25-29]

NB - Foram respeitadas a grafia e a pontuação da edição do original consultado. Reprodução autorizada pela editora e pela Fundação José Saramago. Obrigado.

LEITURAS
Rodrigues, D. F. (2003): Cortesia Linguística, uma competência discursivo-textual. (Dissertação de doutoramento). Lisboa: Universidade Nova de Lisboa. Também AQUI.

Obs. - O leitor eventualmente interessado no sistema linguístico da cortesia verbal em português, encontrará também, ao longo deste blogue, além de artigos do autor (dez primeiros posts), textos recolhidos e transcritos em obras literárias, teóricas e em guias de boas maneiras.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Coletânea [028]

019. Cortesia e distanciamento social



          «Matilde tinha as feições coradas pelo lustro do suor, que lhe realçava as sardas, quando montava a cavalo, em volteio, no redondel do monte. Dirigia-se a Gerardo com uma polidez distante, sobranceira, que a diferença de idades não justificava. Nunca deixou de tratar o primo por você, apesar da insistência do pai, que não era de arcas encouradas e praticava uma franqueza de lavrador muito refractária a preciosismos e etiquetas. À mesa era de uma rispidez de gestos, de uma secura de trato, de uma indiferença que intimidavam Gerardo. Ele, com a idade que tinha, não podia adivinhar que significavam o contrário do que aparentavam.»


Mário de Carvalho, 2013: «As estátuas de sal»,
em A Liberdade de Pátio. Porto: Porto Editora; pp. 86-87.


LEITURAS
Rodrigues, D. F. (2003): Cortesia Linguística, uma competência discursivo-textual. (Dissertação de doutoramento).
                     Lisboa: Universidade Nova de Lisboa. Também AQUI.

NB - O leitor eventualmente interessado no sistema linguístico da cortesia verbal me português, encontrará também, ao longo deste blogue, além de artigos do autor (dez primeiros posts), textos recolhidos e transcritos em obras literárias, teóricas e em guias de boas maneiras.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Coletânea [027]


018. Cortesia (etiqueta) não verbal (beijar a mão) e verbal (tratamento por tu e/ou por você)





Nota - O texto, em imagens (jpeg), foi adaptado a esta apresentação, sem contudo em nada ser alterado o seu conteúdo.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Coletânea [026]

017. Diálogo polémico, com insultos e outras descortesias verbais pelo meio (1856)


O trecho que, neste post, se apresenta encontra-se em Dous Santos não Beatificados em Roma, narrativa de Camilo Castelo Branco (1825-1890). Inicialmente publicada, em 1856, no jornal portuense O Clamor Público, o escritor juntou-a, depois, no volume Duas Horas de Leitura (1857), a de Do Porto a Braga. Na 2.ª edição do volume (1858), reuniu mais duas narrativas: Impressão Indelével e Sete de Junho de 1849. [Cf. AQUI ou Cabral, 1989: 243]

Neste trecho, dois irmãos – Genoveva e Januário – dialogam, discordando, sobre o futuro de Matilde, órfã de mãe e filha do segundo, mas educada pela primeira.
Entretanto, Matilde conhece Paulo e amam-se, em segredo do Januário. Um dia, porém, Genoveva diz ao irmão que «era necessário casar Mathilde», ao que ele perguntou «se o noivo era cavalheiro do habito [de Cristo], pelo menos.» A irmã «respondeu, que era filho d'um honrado negociante.» Ele «sorriu-se, e disse: lé com lé, e cré com cré
«Januário Pires de Miranda, natural de Mirandella, era alferes do 4.º da legião […]. Depois da batalha do Bussaco, […] como notavel proprietario que era na sua comarca, foi um dos deputados á côrte no Rio de Janeiro, para felicitarem S. Alteza pelos feitos heroicos dos seus vassallos, como se não fosse S. Alteza quem devia felicitar os vassalos.»
«[…] No dia seguinte, Januario Pires de Miranda sahiu do Paço com o habito de Christo pendurado na casaca, e um alvará régio de perdão para que as justiças o não podessem em tempo algum perseguir por crime de morte, que elle agraciado perpetrara na pessoa d’um seu visinho, com uma saxola, por causa d’uma partilha d’aguas na courella do Reguengo»
«O Cavalheiro do habito, desconfiando das democraticas doutrinas de sua irman, em materia de casamento, resolveu levar comsigo para Alfarella sua filha. Mathilde tão depressa a mandaram preparar a troixa, deu parte a Paulo da situação violenta, em que a punham os deveres de filha.» O suicídio foi tentação que, a não se consumar o casamento, a cabeça de ambos rondou.
Genoveva estava ao lado da sobrinha. Confortava-a. Paulo, por sua vez, encontrava apoio no tio frei Bento, franciscano. Todos pediam a Deus que se desse o milagre de Januário consentir o casamento. Rezavam e choravam, choravam e rezavam. Sobretudo Genoveva e Matilde. Mas em vão. [Cf. Branco, 18582: 13-17]

«O dialogo continuava entrecortado dos gemidos de ambas, quando Januario veio dar com ellas pela segunda vez em mudo colloquio de lagrimas.

“Deixemo-nos d’asneiras! (disse elle.) Basta de choramingar. Isto não é para sempre... O diacho das mulheres choram por dá cá aquella palha! Tivesseis vós em que pensar, e não andarieis sempre a lagrimejar vinagre por um olho, e azeite por outro.
– O’ Januario.... – tornou D. Genoveva – tu estás cada vez mais grosseiro..
“Não estou magro não, graças a Deus; não tenho fastio, e mastigo bem; mas não sabes por que, Genoveva? E por que eu tracto do que serve cá para o amanho da vida, e não ando com a cabeça por papos d’aranhas. Tenho trabalhado muito para deixar uma boa casa a dois filhos que tenho, e não é só isso; ando a arranjar-lhe honras lá por esses mundos de Christo, e cá esta menina, sem meu consentimento, anda por cá a doudejar...
– Calla-te, calla-te, que és um homem sem educação nenhuma... Vai-te vestir, Mathilde, vai, que eu preciso ficar sósinha com teu pai.
Mathilde sahiu, e a senhora D. Genoveva, vermelha de zanga, continuou assim, em quanto seu irmão apertava os botões das polainas:
– Não quiz que tua filha me ouvisse, para que ella não faça de seu pai a idêa que eu faço. Tu és um homem como fostes sempre. Um malcreado, com todos os defeitos que traz comsigo a falta de civilidade. És um lavrador dos mais rusticos da nossa terra, e metteu-se-te na cabeça ser fidalgo, por que pensas que ser fidalgo é trazer um pendurelho ao peito. Valha-te Deus! se nosso pai te visse com isso... dava-te com as sôgas dos bois até tocar a quebrado. Eu fallo-te a verdade: estava morta que tu sahisses de Villa-Real, antes que os fidalgos cá da terra saibam que tu tens a mania da fidalguia. Os rapazes atiravam-te ás pedras; e eu, que tenho guardado com honra a posição que nosso pai me deu, teria vergonha, como tenho desde hoje, de ser tua irmã...
“Tu estás dizendo grandes atrevimentos !... Vai bacharelar ao diabo... Mette-te com a tua vida...
– Olha cá... sempre te quero dizer duas palavras a respeito de tua filha. Minha sobrinha foi creada comigo; as prendas que tem deve-m’as a mim...
“Então queres que t’as pague?
– Não, estupido, não quero que m’as pagues; mas ella é que m’as quer pagar com a gratidão da nobre alma que tem, e não parece ter nada da tua. A infeliz é minha verdadeira amiga, e nunca poderá ter por ti outro sentimento senão o da sujeição, e o do mêdo d’um tyranno... entendes?
“Acho que entendo... Cá vou assentando no meu canhenho... Andarei com o olho sobre ella...
– Não é preciso, mau homem, não é preciso vigial-a. Tem virtudes de sobra para te não enganar, e é mais possivel morrer que resistir ao despotismo de seu pai. Ora, se ella morrer, Januario, o responsavel, o criminoso, o verdugo és tu.
«Eu? ora essa! Boa vai ella!
– Sim, tu... E não tenho mais nada a dizer-te... Deus te não leve em conta as lagrimas que eu e ella choraremos...
“Pois tu que querias? aposto que todo esse aranzel é a troco de eu não querer que ella case com o borra-botas?
– Fecha essa bocca, ignorante! Tu darias quanto tens por ter na cara a honra que elle tem nos calcanhares. Quando Deus quer dar a um pai um genro virtuoso, escolhe no mundo rapazes como aquelle..., e esses são muito raros.
“Mas eu não quero, e arrumou! Vão lá tirar-me esta da cabeça! Não quero, e não quero! A rapariga é minha filha, eu sou senhor do que é meu; e não me puchem pela lingua, se não acaba-se aqui o mundo!...

O senhor Jannario foi fecundo n’este genero. Disse, o mais rusticamente que pôde, singulares asneiras sobre o direito paternal, e acabou por descobrir que tinha apertado ás avessas a polaina esquerda, que desabotoou para abotoar de novo, vomitando uma praga a cada botão.»

O insulto e outras descortesias verbais podem e devem ser estudados no quadro teórico da Cortesia Linguística. Em Rodrigues, 2003, encontram-se referências mais ou menos desenvolvidas, a atos de discurso deste tipo, atos que ameaçam as faces (positiva e/ou negativa) do alocutário e, por efeito de boomerang, do próprio locutor, bem como de terceiros, consoante o círculo de afetos de cada um. Os interessados poderão consultar, sobretudo, os caps. III, VIII, XIX, XI, XIV e XV do trabalho referido.

Bibliografia
BRANCO, Camilo Castelo, 18582: Duas Horas de Leitura. Porto: Casa de Cruz Coutinho, Editor; pp. 26-29.
CABRAL, Alexandre, 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho (2.ª ed.: 2003).
RODRIGUES, David Fernandes, 2003: Cortesia Linguística – Uma competência discursivo-textual (Dissertação de doutoramento, apresentada em 2002 e defendida em março de 2003). Lisboa: Universidade Nova de Lisboa. Disponível também AQUI.


NB - Nas transcrições, foi respeitada a grafia do original consultado.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Coletânea [025]

016. estratégias de cortesia vs. cortesias estratégicas



Todo o capítulo encontra-se já reproduzido e transcrito AQUI.

domingo, 22 de setembro de 2013

Coletânea [024]

015b. «Dos cumprimentos» (1845)


[Continuação do post anterior.]


[Continuará]
Nota bibliográfica
ROQUETTE, J.-I., 18592: Codigo do Bom Tom ou Regras de Civilidade e de Bem Viver no XIX.º Seculo. Pariz: Casa de J.-P. Aillaud; pp. 61 e 67. Na 4.ª edição (1875), com 4 estampas coloridas (disponível aqui), pp. 65-70. Desta edição foram retiradas as pp. em pdf (80-86) que, depois de trabalhadas, aqui são apresentadas como imagens (formato jpeg).

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Coletânea [023]

015a: «Dos cumprimentos» (1845)


[Continuação do post anterior.]




[Continuará]

Nota bibliográfica
ROQUETTE, J.-I., 18592: Codigo do Bom Tom ou Regras de Civilidade e de Bem Viver no XIX.º Seculo. Pariz: Casa de J.-P. Aillaud; pp. 61 e 67. Na 4.ª edição (1875), com 4 estampas coloridas (disponível aqui), pp. 65-70. Desta edição foram retiradas as pp. em pdf (80-86) que, depois de trabalhadas, aqui são apresentadas como imagens (formato jpeg).