quinta-feira, 1 de setembro de 2011

UMA SENHORA DE MUITA TRETA (Continuação)

CORTESIAS E DESCORTESIAS DUMA SENHORA DE MUITA TRETA (II)



[O texto que, com ligeiras alterações, continuo a reproduzir neste post encontra-se publicado em Actas do XV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, 2000, pp. 257-286, e em Cadernos Aquilinianos, n.º 11, 2000, pp. 51-80]



           Kerbrat-Orecchioni, na sequência do que fazem Brown & Levinson, descreve também os processos linguísticos que, a nível de fórmulas como de formas conversacionais, o locutor utiliza, em relação ao seu interlocutor e a si próprio, a fim de que as interacções verbais decorram em relativo equilíbrio e harmonia. Há, pois, uma competência de cortesia, a incluir na macro-competência comunicativa[27], que se manifesta através de procedimentos discursivos, conversacionais e textuais, que vão da prioridade e toma de palavra nos turnos de fala[28], à organização das trocas verbais e sucessão das intervenções, do tipo de actos de fala aos marcadores discursivos[29]. E tudo isto respeitando ou cumprindo os princípios e regras de cortesia, adequados ao contexto da interacção, segundo as normas culturalmente reconhecidas e praticadas por uma dada comunidade.
Aos marcadores discursivos e conversacionais que manifestam as distâncias horizontal (ou de relação proxémica[30]) e vertical (ou de relação taxémica[31]), entre os interlocutores, chama Kerbrat-Orecchioni, respectivamente, relacionemas horizontais e relacionemas verticais (ou simplesmente taxemas, que subdivide, por sua vez, em taxemas de posição alta e de posição baixa)[32]. Além disso, tais relacionemas podem ser classificados ainda em indicadores ou construtores, conforme se limitam a manifestar, respectivamente, um tipo de relação já existente, ou uma relação construída no início ou durante a interacção.
As formas e fórmulas de tratamento, corteses e descorteses, são, por isso, relacionemas que, consoante o tipo de relações interpessoais que estabelecem, são horizontais ou verticais. Apesar da distinção, convém referir que, frequentemente, uma mesma forma ou fórmula de tratamento funciona como relacionema horizontal e como taxema. A complexidade e a dinâmica duma interacção verbal levam a que os interlocutores, conforme o uso que fazem dos tratamentos, ora se aproximem, ora se afastem, ora confundam posições, ora as invertam, ora as recuperem, ora as negoceiem, construindo e gerindo relações interpessoais de simetria e/ou assimetria que podem ir da familiaridade e intimidade, ao afastamento e ruptura completa[33]. E assim, para além das funções fáticas, deíticas e relacionais, os tratamentos afectam e condicionam, por um lado, a organização discursiva de cada um dos interlocutores e do texto conversacional, e, por outro, a sua dimensão configuracional. A este nível, os tratamentos, corteses e descorteses, podem ser vistos como procedimentos retórico-argumentativos[34] que visam a adesão e o convencimento do interlocutor, pela sedução ou confronto agressivo. Como muitas vezes faz a nossa senhora de muita treta. Por exemplo, quando a Salta-Pocinhas procura e encontra o teixugo D. Salamurdo[35].
Trata-se de uma interacção constituída por duas sequências dialogais[36]. A primeira é truncada: aos sucessivos turnos de fala da raposa, o teixugo nunca responde, por se encontrar mergulhado em pesado sono, situação que a raposa desconhecia. Ela interpreta os silêncios do teixugo como respostas negativas às suas intervenções. A segunda sequência é de conflito e de ruptura. O teixugo, ofendido pela invasão e sobretudo pela insuportável falta de higiene da Salta-Pocinhas, nega-lhe a esmola. Ela, sentida e ofendida, retoma a violência dos ofensas[37]. A conversa degenera em insultos verbais mútuos e termina, indo cada um para seu lado. D. Salamurdo a queixar-se do atrevimento da Salta-Pocinhas ao vizo-rei, o lobo D. Brutamontes, de quem era leal servidor. Ela invadindo, logo que se sentiu segura, os aposentos do teixugo, onde, vingativa, lhe causou grandes danos.
Diz-nos o co(n)texto desta interacção que, informada pelo irmão Pé-Leve de que o teixugo havia pilhado pata e era esmoler, a faminta raposa não descansou enquanto não descobriu o castelo onde morava D. Salamurdo. Tem cada uma destas personagens conhecimentos e, consequentemente, representações[38] mútuas diferentes. A raposeta sabe, pelas conversas que foi tendo ao longo da viagem, que o teixugo possui mantimentos, mora num castelo e ocupa um lugar superior, na hierarquia dos bichos que povoam aquelas selvas e penedias. O teixugo, por sua vez, vê na Salta-Pocinhas apenas uma raposa com as características próprias da espécie.
            Estes dados co(n)textuais prefiguram, entre as personagens, uma relação distanciada, proxémica e taxemicamente. Como o desenho seguinte pretende mostrar:

D. Salamurdo e Salta-Pocinhas situam-se, simultaneamente, em posições opostas e afastadas, instituindo um tipo de relações de cortesia que o diassistema cultural português define como sendo de respeito do inferior para com o superior.
Foi esta a relação que a senhora de muita treta começou por assumir?
A visita da raposa tem por único objectivo conseguir que o teixugo lhe dê alimento. Para o concretizar (excluído o furto), teria ela de, em primeiro lugar, estabelecer contacto com D. Salamurdo e, depois, formular o pedido. Ora, contacto e pedido são, embora em graus diferentes, actos directivos que colocam o locutor numa posição alta e afastada relativamente ao alocutário, i. é, são FTAs. Assim sendo, não os podendo evitar, deveria a raposeta, para ser cortês, ter atenuado a sua alocução.
E como procedeu ela?

A Salta-Pocinhas, como o olfacto lhe certificasse que estava diante do solar do teixugo, chamou à porta[39]:

[R1] – [1]Ó da casa! Ó da casa! [40]

Em [R1] temos a reduplicação do tratamento nominal apelativo Ó DA CASA! É, na sua construção elíptica e metonímica, uma fórmula informal de chamamento característica de ambientes rurais. Com ela, o locutor anuncia a sua presença e intenta dar início a uma interacção verbal que, realizada com sucesso a sequência fática de abertura, evoluirá para o corpo ou sequência transaccional. Em princípio, porém, tanto o seu enunciador como o seu destinatário são, pessoal e mutuamente, estranhos e anónimos.
Trata-se, por isso, de um acto verbal que ameaça directamente a face negativa (território) do alocutário e, indirectamente, mas com sentido positivo, a face positiva do locutor, uma vez que tem ou pretende ter poder sobre o outro, para o chamar. Com o apelativo Ó DA CASA! a raposa constrói e estabelece, por isso, uma relação de distanciamento simultaneamente proxémica e taxémica. Como a figura seguinte pretende ilustrar:

            A Salta-Pocinhas, com [R1], inverte radicalmente as posições de distanciamento que os dados co(n)textuais, anteriores ao início da interacção, haviam prefigurado.
A realização deste FTA de contacto deveria ter sido, por isso, atenuada. Desse modo, a Salta-Pocinhas suavizaria os ataques à face de D. Salamurdo e, correlativamente, protegeria a sua própria face[41]. Mediatamente, ao nível do conteúdo proposicional da fórmula de tratamento utilizada[42]. Imediatamente, pedindo desculpa pela invasão do território e justificando o seu acto. A Salta-Pocinhas, ao longo desta sequência, não chega a formular, explicitamente, um acto reparador de desculpa, embora venha a formular algumas justificações. Todavia, estas, como as formas de tratamento corteses utilizadas, podem ser interpretadas como realizações implícitas de desculpa[43].
 Mas será que, de acordo com os princípios de preservação e figuração das faces, não se encontra, na realização deste FTA, nenhum aspecto atenuante?
Numa interacção diádica, em que estão em presença quatro faces, um FTA não fere todas elas de igual modo, nem com igual gravidade. Além disso, ao ataque a uma das faces do destinatário corresponde, assimetricamente, em princípio, uma valorização da face oposta do enunciador.
Acontece que, ao nível da semântica deste acto, quem chama Ó DA CASA! reconhece, indirecta mas positivamente, que se dirige a alguém que possui ou goza de habitação, identificando-o e confundindo-o mesmo com essa habitação, o que equivale a uma manifestação de respeito pela face positiva do destinatário. Mas, em contrapartida para quem chama, este acto é lesivo, de forma indirecta mas negativamente, da própria face negativa, pois reconhece que está junto de propriedade alheia, além de que, pragmaticamente, se chama é porque deseja alguma coisa[44].
A análise da fórmula de tratamento Ó DA CASA!, de ocorrência reiterada no discurso, leva a concluir que a senhora de muita treta não seguiu, a princípio, as melhores estratégias da cortesia. A considerar-se cortês, tal fórmula encontrar-se-á no limiar da cortesia[45]. Basta comparar Ó DA CASA! com as realizações não elípticas de Ó gente da casa!, Ó dono da casa!, Ó patrão da casa! e sobretudo Ó senhor da casa!, claramente mais cortês. Além disso, a Salta-Pocinhas poderia ter utilizado formas e fórmulas de cortesia mais elevada, inclusive honoríficas e deferenciais, como, aliás, acabou por fazer, momentos depois.
[Continua]

David F. Rodrigues



[27] «To function as members of a culture, speakers must have a high degree of communicative competence. They must know how to speak appropriately in given situations: what degree of respect is appropriate, what markers of politeness are required, what rules governing turn-taking are in force, and much more.» [CHIMOMBO & ROSEBERRY, 1998: 6]
[28] «A un premier niveau d’analyse, que l’on peut dire “formel”, toute interaction verbale se présente comme une succession de “tours de parole” - ce terme désignant d’abord le mécanisme d’alternance des prises de parole, puis par métonymie, la contribution d’un locuteur déterminé à un moment déterminé du déroulement de l’interaction (production continue délimitée par deux changements de tour, qui peut du reste avoir une longueur extrêmement variable, allant du simple morphème à l’ample “tirade”)» [KERBRAT-ORECCHIONI, 1990: 159].
[29] Para uma exposição breve e geral da organização estrutural das interacções verbais, cfr. KERBRAT-OREC-CHIONI, 1996: cap. 6.
[30] Criado por Hall, o termo proxémia designa «o conjunto das observações e teorias referentes ao uso que o homem faz do espaço enquanto produto cultural específico.» [HALL, 1986:11] Contrapondo proxémia a cinésia, o antropólogo americano esclarece que a proxémia «traite de l’architecture, de l’ameublement et de l’utilisation de l’espace... La proxémique cherche à déterminer comment nous établissons les distances» [HALL, 1981: 196, cit. por CARREIRA; 1995: 9] Tomo, aqui, proxémia e proxémico(a) para referir, exclusivamente, distâncias ou relações horizontais.
[31] «Du grec taxis= “place” (dans une structure de préférence hiérarchique)» (KERBRAT-ORECCHIONI, 1992: 75, nota 1]. A autora adverte para o inconveniente deste neologismo poder ser confundido com o termo que, nos seus modelos linguísticos, utilizam Hjelmslev, Bloomfield, Pottier e Rastier. Tomo, aqui, taxémia e taxémico(a) para referir, exclusivamente, distâncias ou relações verticais.
[32] Cfr. KERBRAT-ORECCHIONI, 1996: 42 e 46-47.
[33] Sobre a complexidade dos tratamentos e dos movimentos distanciadores, verticais e horizontais, simétricos e assimétricos, que os interlocutores efectivam com o uso dos tratamentos, cfr. CARREIRA, 1995: cap. 2.
[34] «D’une façon générale, la rhétorique va naître de la prise en compte de la distance entre les locuteurs, qui va directement se négocier ou s’affirmer, et l’on aura la valorisation du locuteur (arguments d’autorité), sa dévalorisation éventuelle pour mieux faire passer une thèse propre, ou symétriquement, la valorisation ou l’attaque directe de l’interlocuteur[MEYER, 1993: 119]. Cfr. também LARGUECHE, 1983: 7.
[35] Cfr. RIBEIRO, id.: 28-32.
[36] Sequência entendida como «estrutura», isto é, por um lado, «un reseau relationnel hiérarchique», ou seja, «grandeur décomposable en parties reliées entre elles et reliées au tout qu'elles constituent», e, por outro, «une entité relativement autonome, dotée d'une organisation interne qui lui est propre et donc en relation de dépendance / indépendance avec l'ensemble plus vaste dont elle fait partie.» [ADAM, 1991: 11]
[37] Recordo que me situo apenas nas estratégias verbais. Estratégias paraverbais e não verbais acompanham também e sempre a realização deste, como de qualquer outro, acto de discurso. Nas ficções narrativas, estes aspectos são frequentemente fornecidos pelo narrador, através do discurso atributivo e dos verba dicendi.
[38] Representações, no sentido que lhe dá Jean-Blaise Grize, de “formações imaginárias” que os interlocutores têm de si próprios e um do outro, da própria relação e situação de comunicação, do tema da conversa, etc. [Cfr. GRIZE, 1990: 33-34]
[39] A invasão do espaço físico do outro é sempre um FTA não verbal e, por isso, um ataque ao seu território, à sua face negativa. Mais por verdadeiro receio que por cortesia, a raposa não o comete. Passaram-se minutos, e a raposinha tentada, vai não vai, a arremeter por ali dentro, à ventura, fosse o que Deus quisesse. D. Salamurdo, porém, tinha garras de aço que apertavam como turqueses, dentes possantes que uma vez ferrados não abriam mais, e acobardou--se. [RIBEIRO, id.: 29]
[40] RIBEIRO, id.: 28. Conforme a prática seguida em estudos de análise conversacional, cada interactante é aqui indicado pela inicial  – R de raposa e T de teixugo – imediatamente seguida do número de turno de fala – [R1], neste caso. Quando entrar em cena o teixugo, será [T1]. O número entre parêntesis rectos – [1], no caso – indica o acto de fala. Estes terão uma numeração sucessiva, independentemente de serem realizados por [R] ou [T].
[41] É a conhecida questão dos princípios de preservação da face (face want) e figuração (face work) que o sistema de cortesia preconiza. As noções de face want e de face work são complementares e estão intimamente relacionadas com as noções de face e de FTA e FFA. Ou seja, todos os interactantes desejam ver cuidada a sua face, tanto negativa como positiva, sabendo que qualquer acto de comunicação é potencialmente ameaçador dessa mesma face. Assim, a contradição aparente entre a impossibilidade de não comunicar e o desejo de preservação da face resolve-se através de processos de figuração permanente, o que passa pelas estratégias de cortesia. Por isso, a cortesia também se define como «un moyen de concilier le désir mutuel de préservation des faces, avec le fait que le plupart des actes de langage sont potentiellement menaçants pour telle ou telle de ces mêmes faces[KERBRAT-ORECCHIONI, 1996: 53]. Para a noção de figuração (face work), também ela goffmaniana, cfr. GOFFMAN, 1974: 15-30.
[42] O discurso atributivo do narrador não nos fornece elementos paraverbais que a raposa tenha utilizado também na realização de [R1]. Actos não verbais e paraverbais podem acompanhar e atenuar também a realização linguística de um FTA.
[43] Análises desenvolvidas de trocas verbais rituais (uma reparadora -o pedido de desculpa- e outra de cumprimento -o agradecimento) encontram-se em KERBRAT-ORECCHIONI, 1994: 149-301; 1996: 83-88 (versões resumidas). Cfr. também EGNER, 1988; GOFFMAN, 1973: 101-180.
[44] Não é por acaso que uma intervenção reactiva frequente a chamamentos deste tipo é Que quer?
[45] Tanto mais quanto D. Salamurdo se situava a si próprio na posição daqueles que vivem em casas com portas de certa teoria. [RIBEIRO, id.: 30]


Referências

ADAM, J.-M., 1991: «Cadre théorique d’une typologie séquentielle», Études de Linguistique Appliquée, 83: 7-18.
CARREIRA, M. H. A., 1995: Modalisation Linguistique en Situation d’Interlocution. Proxémique verbale et modalités (Thèse de Doctorat d’État en Linguistique). Paris: Université de Paris IV- Sorbonne.
CHIMOMBO, M. & ROSEBERRY, R. l., 1998: The Power of Discourse. An introduction to discourse analysis. New Jersey / London: Lawrence Erlbaum Assocites, Publishers.
EGNER, I., 1988: Analyse Conversationnelle de l’Échange Réparateur en Wobé. Parler wee de Côte d’Ivoire. Berne: Peter Lang.
GOFFMAN, E., 1973: 1974: Les Rites d’interaction. Paris: Minuit.
----------- Les Relations en public. Paris: Minuit.
GRIZE, J.-B, 1990: Logique et Langage. Paris: Ophrys.
HALL, E. T., 1986: A Dimensão Oculta. Lisboa: Relógio d’Água (Trad. port. de The Hidden Dimension, 1966).
----------- 1981. Proxémique. In Yves Winkin (org.) : La nouvelle communication. Paris : Seuil ; pp. 191-221.
KERBRAT-ORECCHIONI, C., 1990, 1992, 1994: Les Interactions verbales (Tomo I, II e III). Paris: Colin.
----------- 1996: La conversation. Paris: Seuil.
LARGUECHE, E., 1983: L’Effet Injure. De la pragmatique à la psychanalyse. Paris: PUF.
MEYER, M., 1993: Questions de Rhétorique. Langage, raison et séduction. Paris: Librairie Générale Française.
RIBEIRO, A., 1961: Romance da Raposa. Amadora: Bertrand.


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

UMA SENHORA DE MUITA TRETA

CORTESIAS E DESCORTESIAS DUMA SENHORA DE MUITA TRETA (I)


[O texto que, com ligeiras alterações, começo a reproduzir neste post encontra-se publicado em Actas do XV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, 2000, pp. 257-286, e em Cadernos Aquilinianos, n.º 11, 2000, pp. 51-80]




«[...] vamos ter de lidar [...] com aquelas palavras que são mulas de carga que usamos todos os dias para intensificar as nossas frases, maldizer a nossa sorte e condenar ou provocar os nossos concidadãos.»
BURGEN, 1996: 6

Por dotada ser de «palavreado» com que facilmente «ilude» e «engana», «ataca» e «derriba»[1] os seus interlocutores, Salta-Pocinhas, a famosa protagonista do Romance da Raposa de Aquilino Ribeiro, tratada é também por senhora de muita treta[2].
Para iludir e enganar, realiza ela actos verbais, orientados uns para a valorização da face do destinatário, orientados outros para a desvalorização da sua própria face, percorrendo, se necessário, e gerindo-os, conforme as conveniências, todos os degraus do sistema de cortesia. Ao invés, para atacar e derribar, realiza ela outros actos verbais que, por lesarem a face do destinatário, são descorteses por natureza. Por isso, se, hipócrita, é capaz de, para ver cumpridos os seus desígnios, seduzir, por aproximação e deferência, o interlocutor e mesmo elevá-lo aos cumes do tratamento honorífico, com maior facilidade ainda, vingativa e despeitada, o destrona, em caso de infortúnio, remetendo-o, através de insultos, a uma posição distanciada e distanciadora, invertendo por completo as relações interpessoais entretanto estabelecidas.
Dessas cortesias e descortesias faz a raposeta pintalegreta outras tantas estratégias conversacionais que, a nível relacional e transaccional[3] discursivamente manipuladas, lhe permitem vencer as constantes lutas de subsistência e sobrevivência com que todos os dias se vê confrontada.
Impossível tratar, aqui e agora, todas as representações linguísticas de cortesia e descortesia[4] a que a Salta-Pocinhas recorre. Limitar-me-ei, por isso, às formas e fórmulas[5] nominais de tratamento[6], onde incluo um determinado tipo de insultos, e considerarei apenas aquela interacção verbal[7] onde esses tratamentos, corteses e descorteses, se encontram em maior número.
Além das evidentes funções fáticas e deícticas, os tratamentos constituem também processos de estabelecimento e regulação de distâncias[8] entre os interlocutores, afectando e condicionando a construção e organização sequencial e configuracional das interacções verbais.
Estudados, regra geral, como fenómenos linguísticos relativamente autónomos de auto e hetero-referência, os tratamentos serão aqui analisados no âmbito mais largo da cortesia verbal, ramo de investigação recente no seio dos estudos da pragmática linguística, em geral, e da análise conversacional ou do discurso, em particular.
É no quadro teórico proposto por Kerbrat-Orecchioni[9] que desenvolverei a análise das cortesias e descortesias da tal senhora de muita treta. À constituição de um sistema de cortesia linguística aplicável aos diferentes tipos de interacções verbais existentes em todas as sociedades e culturas, tem dedicado a linguista francesa a sua obra mais recente. Em particular, os tomos II e III de Les Interactions Verbales, de que os capítulos 7 a 15 de La Conversation constituem uma síntese essencial[10].
Kerbrat-Orecchioni integra no âmbito da cortesia linguística «tous les aspects du discours qui sont régis par des règles, et dont la fonction est de préserver le caractère harmonieux de la relation interpersonnelle». Tais princípios e regras governam e regulam, não só, «les comportements que le locuteur doit adopter envers son partenaire d’interaction», mas também «les attitudes que le locuteur doit adopter vis-à-vis de lui-même»[11]. Assim, já não é só a problemática dos constituintes do texto conversacional que se estuda, mas também as relações que, a nível interpessoal, os interlocutores manifestam numa dada situação ou co(n)texto[12] de conversação.
A investigadora parte das teorias já “clássicas”[13], que analisa, aproxima e aperfeiçoa, para organizar um «sistema da cortesia», em torno de três eixos principais:

1-      Eixo dos princípios que regem os comportamentos linguísticos que o locutor deve adoptar em relação a si próprio (princípios L-orientados) e em relação ao seu alocutário (princípios A-orientados).
2-      Eixo dos princípios que relevam da cortesia negativa  vs. cortesia positiva.
3-      Eixo dos princípios que dizem respeito à face negativa  vs. face positiva.

 Articulando e cruzando estes eixos, são hierarquizados, em função da sua importância e poder discriminatório, cinco princípios, que o quadro seguinte resume[14].



SISTEMA DE CORTESIA


(I) Princípios A-orientados
(1) Cortesia negativa:
Evite ou atenue actos verbais ameaçadores para
a)      a face negativa do alocutário
b)      a face positiva do alocutário.

(2) Cortesia positiva:
            Produza actos verbais valorizadores de
a)      a face negativa do alocutário
b)      a face positiva do alocutário.

(II) Princípios L-orientados
A-     Princípios favoráveis a L
(1) Cortesia negativa:
            Proceda de modo a não perder, de forma demasiado ostensiva,
a)      a sua face negativa
b)      a sua face positiva

(2) Cortesia positiva

B-     Princípios desfavoráveis a L
(1) Cortesia negativa:
            Evite ou atenue a formulação de actos valorizadores para
a)      a sua face negativa
b)  a sua face positiva

(2) Cortesia positiva:
            Realize actos ameaçadores em relação
a)      à sua face negativa
b)      à sua face positiva


Os princípios A-orientados (I) vêm à cabeça do sistema, pois representam a cortesia em sentido estrito. Por abstenção ou compensação (no caso da cortesia negativa[15]) e por produção (no caso da cortesia positiva[16]), tais princípios são sempre favoráveis à face do alocutário, na sua dupla vertente negativa e positiva[17].
Segundo o princípio I-1, deve o locutor evitar ou, tal não sendo possível, atenuar, através de procedimentos verbais, paraverbais e não verbais[18], adequados à situação ou contexto, todos os actos que ameacem (FTAs[19]) as faces negativa ou/e positiva do alocutário. São muitos os FTAs que podem ocorrer numa interlocução. De evitar são, regra geral[20], por descorteses, os insultos e os actos directivos explicitamente formulados. Mas se evitados não puderem ser, deve a sua formulação ser suavizada através dos procedimentos atenuantes, substitutivos ou/e acompanhantes, que o sistema da língua e o sistema da cortesia linguística põem ao nosso dispor.[21]
O princípio I-2 é de cortesia positiva e, por isso, propõe a valorização das faces do alocutário, através da realização de FFAs[22], tais como, propostas de ajuda, de serviços e de “presentes verbais”. Os tratamentos corteses, em geral, e, dentro deles, os honoríficos e deferenciais, em particular, são realizações linguísticas deste princípio.
Na hierarquia dos princípios de cortesia, vêm, em segundo lugar, os princípios L-orien-tados (II), distinguindo princípios favoráveis a L (II-A) de princípios desfavoráveis a L (II-B).
No que toca aos princípios II-A, regista-se apenas um (II-A-1), o qual estabelece que L deverá salvaguardar, tanto quanto possível o seu território de, por exemplo, intrusos e inoportunos, mas também não permitir que lhe “arrastem a face pela lama”.
A cortesia positiva não propõe qualquer princípio favorável a L. Nas sociedades ocidentais, «on ne saurait raisonnablement admettre, parmi les principes constitutifs du savoir-vivre, quelque chose comme “faites votre propre éloge” [...].» Excepto circunstâncias especiais, «le plaidoyer pro domo est proscrit dans notre société, qui juge sévèrement les manifestations trop insolentes de auto-satisfaction.»[23] Ou seja, a protecção da nossa própria face positiva não aconselha a sua valorização ostensiva[24], por modéstia e cortesia.
Acontece, pelo contrário, encontrar-se, frequentemente, no sistema da cortesia verbal, regras que jogam sobretudo a desfavor do locutor. São os princípios II-B. O princípio II-B-1 propõe que, a ter de se fazer o nosso próprio elogio, recorramos, por exemplo, a processos de indirecção discursiva ou a figuras retóricas, como o litote, a metáfora, a ironia, ou a outros processos de substituição ou de minimização.
Mas se o auto-elogio é, em princípio, socialmente proscrito, já a auto-degradação das faces é, regra geral, prescrita. Pode até dizer-se que a hetero-cortesia passa, muitas vezes, pela auto-descortesia[25]. Estamos no âmbito do princípio II-B-2, que defende comportamentos aparentemente «masoquistas». Por modéstia, humildade, bom relacionamento interpessoal – de cortesia, em suma – lesamos os nossos territórios, ou degradamos, sincera ou insinceramente, a nossa face positiva.
Os fenómenos da cortesia verbal não são, todavia, tão lineares e simples quanto a descrição apresentada pode sugerir. Com efeito, nem sempre é fácil determinar, com precisão, se um acto verbal é cortês ou descortês, se ele ameaça, protege ou valoriza a face de cada um dos interlocutores, ou as faces de ambos ao mesmo tempo. Como também não é fácil reconhecer o tipo de relações interpessoais que, através desse acto, os interlocutores estabelecem, alteram ou denegam. Os princípios de cortesia têm uma realização e uma eficácia que dependem muito, por um lado, das sociedades e suas culturas, e, por outro, das situações concretas em que ocorrem e se desenvolvem as interlocuções. Mas não cabe, aqui e agora, analisar a complexidade dos fenómenos da cortesia, tanto a nível intracultural como intercultural[26].

[Continua]

David F. Rodrigues



[1] Os termos entre parêntesis foram colhidos nas entradas «treta» e «tretas» do Dicionário Morais [SILVA, 195810 (vol. XI): 216].
[2] RIBEIRO, 1961: 7; 29; 78. Citações ipsis verbis ou reformuladas do Romance da Raposa serão transcritas em itálico. Apenas as transcrições mais desenvolvidas serão localizadas pela respectiva página.
[3] O nível relacional diz respeito ao tipo de relação que os interlocutores ou interactantes duma dada interlocução estabelecem, mantêm ou alteram entre si, de acordo com a situação ou contexto da conversação e seu desenvolvimento. O nível transaccional diz respeito, sobretudo, ao conteúdo informativo que, a propósito de um tema ou estado de coisas, é trocado entre os interactantes. É evidente que, numa interacção verbal, estes níveis estão sempre presentes e condicionam-se reciprocamente.
[4] Desconheço a existência de teoria que, à semelhança do que acontece com a cortesia, descreva, na sua globalidade, os fenómenos de descortesia. Creio, contudo, que o modelo proposto por Kerbrat-Orecchioni serve também para explicar os fenómenos descorteses, particularmente os verbais. Como observa Camille Pernot, os principais traços da cortesia desenham a contrario, «dans ses grandes lignes, la figure immuable de l’impolitesse, celle que les différents codes ont invariablement bannie et qu’aucun d’eux ne pourra jamais admettre.» [PERNOT, 1996: 357]
[5] Distingo formas de fórmulas. As fórmulas são realizações estereotipadas, mais ou menos rituais e rotineiras, que, devido ao seu uso recorrente e institucional, perderam, muitas vezes, o seu valor semântico. Embora as fórmulas sejam também formas linguísticas, reservo, contudo, a designação de formas para construções que apresentem uma relativa originalidade.
[6] Além das nominais, o sistema de tratamento do português de Portugal inclui também as formas verbais, marcadas pelas desinências, as pronominais e as pronominalizadas. Cfr., entre outros, CARREIRA, 1995; CINTRA, 19862, MARQUES, 1995 e MEDEIROS, 1985.
[7] Interacção verbal, porque a fala, oral ou escrita, é também acção. Há interacção verbal quando duas ou mais pessoas (ou como tal tomadas, v.g., nas fábulas) se encontram e trocam entre si os seus discursos, dando origem ao que se pode chamar uma comunicação interindividual. Os interlocutores agem uns sobre os outros e realizam, ao mesmo tempo, uma acção conjunta sobre a realidade. [Cfr. KERBRAT-ORECCHIONI, 1990: 17-18 e 1996: 4-5]
     A interacção verbal em causa não é autêntica, mas romanesca. A sua composição e organização, tanto ao nível interaccional como transaccional, obedece, por isso, à estratégia narrativa do Romance da Raposa. Em particular, no que toca à caracterização da sua protagonista e das restantes personagens que com ela interagem.
[8] A distância, conceito importante no quadro da análise conversacional, diz respeito ao tipo de relações interpessoais dos interlocutores. Distinguem-se, habitualmente, dois tipos de distância ou relação: horizontal e vertical. A primeira «renvoi au fait que, dans l’interaction, les partenaires en présence peuvent se montrer plus ou moins “proches” ou au contraire “éloignés”». Existe, assim, um eixo horizontal, gradual e simétrico, orientado, de um lado, para a familiaridade e intimidade, e, do outro, para o distanciamento. A relação ou eixo vertical (também dita de poder, hierárquica ou de dominação) estabelece uma “relação de lugares” entre os interlocutores: «cette dimension renvoi au fait que les partenaires en présence ne sont pas toujours égaux dans l’interaction». Assim, um deles pode ocupar uma posição alta, enquanto o outro pode ocupar uma posição baixa. Gradual, como a horizontal, a vertical é, porém, «par essence dissymétrique». [KERBRAT-ORECCHIONI, 1996: 41 e 45]
[9] Kerbrat-Orecchioni retoma e desenvolve teorias linguísticas de outros autores. Em primeiro lugar, a proposta que Penelope Brown & Stephen C. Levinson apresentam em Politeness - Some universals in language usage [19966], mas também noções e conceitos que Geoffrey Leech utiliza em Principles of Pragmatics [199610]. Estes autores, a par de Robim Lakoff [1998], são geralmente considerados «pioneiros» no estudo da cortesia linguística. Este ramo da análise do discurso começou na década de 70 e, desde então, tem vindo a desenvolver-se e afirmar-se no seio dos estudos linguísticos. A cortesia está a merecer também o interesse de outras disciplinas, como a filosofia, a história e a antropologia. [Cfr. PERNOT, 1996 e DHOQUOIS (dir.), 1992]
[10] O tomo I de Les Interactions introduz a análise conversacional das interacções verbais e estuda a estrutura de cada conversação, entendendo-a como um texto colectivamente produzido por dois ou mais interactantes, num determinado contexto ou situação de comunicação. No tomo II, o estudo incide sobre a construção da relação interpessoal que se verifica em toda e qualquer interacção verbal, com especial destaque para o funcionamento da cortesia, em geral, e da cortesia linguística, em particular, propondo, para esta, um modelo de descrição. O tomo III está dividido em duas partes: na primeira, reflecte-se, segundo uma perspectiva contrastiva, sobre as variações culturais que afectam as componentes estruturais e relacionais das conversações; a segunda é constituída pela aplicação das teorias, expostas anteriormente, a dois tipos diferentes de trocas verbais rituais, a desculpa e o cumprimento. La Conversation é um resumo destes tomos. [Cfr. KERBRAT-ORECCHIONI, 1990; 1992; 1994; 1996]
[11] KERBRAT-ORECCHIONI, 1996: 50-51 e 62.
[12] Na noção de contexto ou situação de comunicação estão incluídos, não só, o tempo e o espaço da interacção, mas também o número de participantes e as suas características individuais, o objectivo individual e geral da conversação, além das relações mútuas de lugares que os interactantes atribuem e se atribuem, no respeito ou desrespeito que expressam, simétrica ou assimetricamente, por si próprios e pelo(s) outro(s).
[13] Ver nota 9.
[14] Kerbrat-Orecchioni faz corresponder as regras de cada princípio a máximas e sub-máximas que, em termos de custo e benefício, Leech propõe como constituintes do princípio de cortesia. Em síntese, um acto é intrinsecamente tanto mais descortês quanto maior é o custo para o destinatário e menor o seu benefício; é mais cortês, em situações inversas. Cfr. KERBRAT-ORECCHIONI, 1992: 181 e 184, LEECH, 199610: 132. A fim de evitar outras descrições teóricas e metodológicas, tal correspondência é aqui omitida.
[15] «La politesse négative est de nature abstentionniste ou compensatoire: elle consiste à éviter de produire un FTA, ou à en adoucir par quelque procédé la réalisation – que ce FTA concerne la face négative (ex.: ordre) ou la face positive (ex.: critique) du destinataire.» [KERBRAT-ORECHIONI, 1996: 54]
     FTA é sigla da expressão inglesa Face Threatening Act, proposta por Brown & Levinson: designa aquele acto verbal que, explícita ou implicitamente, encerra uma ameaça intrínseca para as faces, positiva e/ou negativa, de cada um dos interlocutores. [Cfr. BROWN & LEVINSON, 19966: 60 e 65; KERBRAT-ORECCHIONI, 1996: 51].
[16] «La politesse positive est au contraire de nature productionniste: elle consiste à effectuer quelque FFA pour la face négative (ex.: cadeau) ou positive (ex.: compliment) du destinataire.» [KERBRAT-ORECCHIONI, id.: 54]
     FFA é sigla da expressão inglesa Face Flattering Act, introduzida por Kerbrat-Orecchioni: designa os actos intrinsecamente valorizadores das faces dos interactantes, como sejam os cumprimentos, os agradecimentos ou os votos de boas-festas. Com este tipo de actos, que também designa por «anti-FTA», a autora melhora significativamente a proposta teórica de Brown & Levinson. Estes autores, tendo uma concepção demasiado pessimista da sociedade, consideraram sobretudo a cortesia negativa. Como observa a autora, «se montrer poli dans l’interaction, c’est produire des FFAs tout autant qu’adoucir l’expression des FTAs». E acrescenta: «dans nos représentations prototypiques, la louange passe pour “encore plus polie” que l’atténuation d’une critique.» [KERBRAT-ORECCHIONI, 1996: 51 e 53-54] As siglas FTA e FFA (ou as iniciais das suas traduções noutras línguas; cfr., v. g., VIDAL, 1993: 176 e BLANCAFORT & VALLS, 1999:163 e 169), são hoje correntes entre os analistas da cortesia linguística.
[17] Face é um dos conceitos fundamentais do sistema de cortesia. Kerbrat-Orecchioni retoma-o da proposta de Brown & Levinson que, por sua vez, o tinham ido buscar a Goffman, entre outros. [Cfr. BROWN & LEVINSON, 19966: 13--15 e GOFFMAN, 1974: 9-42]
     Kerbrat-Orecchioni, seguindo explicitamente Brown & Levinson, define, como segue, as duas vertentes da noção de face:
«– la face négative, qui corresponde en gros à ce que Goffman décrit comme les “territoires du moi” (territoire corporel, spatial, ou temporel, biens matériels ou savoirs secrets...);
 la face positive, qui correspond en gros au narcissisme, et à l’ensemble des images valorisantes que les interlocuteurs construisent et tentent d’imposer d’eux-mêmes dans l’interaction.» [KERBRAT-ORECCHIONI, 1996: 51] Para a noção goffmaniana de «territórios do eu», cfr. GOFFMAN, 1973: 43-72.
     É de salientar a clarificação que a investigadora estabelece entre cortesia negativa e cortesia positiva, noções que, em Brown & Levinson, se confundem, frequentemente, com as noções, respectivamente, de face negativa e face positiva. Na cortesia negativa, como na positiva, cada interactante tem sempre uma face positiva e uma face negativa. Assim, numa interacção com, por exemplo, dois interlocutores, estão sempre quatro faces em presença.
[18] A tais procedimentos chamam Brown & Levinson softners, que Kerbrat-Orecchioni traduz por adoucisseurs e os espanhóis por atenuadores. [Cfr. BROWN & LEVINSON, 19966: 70; KERBRAT-ORECCHIONI, 1996: 55 e BLANCAFORT & VALLS, 1999: 169]. Utilizo o termo atenuantes e referir-me-ei apenas aos verbais.
[19] Cfr., supra, nota 15.
[20] A cortesia é a norma. Há, contudo, excepções: «Il y a évidement bien des situations où se trouve suspendu l’exercice des règles de politesse (en cas d’urgence par exemple, ou d’interaction fortement agonale, ou de communication à caractère ludique – dans toutes les sociétés il existe des formes, parfois elles-mêmes ritualisées, de transgression humoristique des rituels de politesse).» [KERBRAT-ORECCHIONI, 1996: 60]
[21] Cfr. KERBRAT-ORECCHIONI, id: 55-59, para uma selecção, classificação e exemplificação destes procedimentos ou estratégias linguísticas e discursivas (marcadores) atenuantes da realização inevitável de FTAs.
[22] Cfr., supra, nota 16.
[23]  KERBRAT-ORECCHIONI, 1992: 184.
[24] Uma excepção: «l’auto-glorification est de règle chez les hommes politiques – mais c’est justement qu’ils sont “fous” (la normalité, c’est bien la modestie)». [Ibid.: 188]
[25] «Comment expliquer un principe aussi peu “naturel” que cette loi de modestie?» Assim: «s’il n’est pas convenable d’exalter sa propre face positive, c’est parce qu’un tel comportement atteint indirectement, par un mouvement inverse de dévalorisation implicite, la face d’autrui; s’il ne faut pas se rehausser soi-même, c’est que cela risque de rebaisser l’autre, et s’il convient parfois de se rabaisser, c’est qu’il y a des chances pour que l’autre s’en trouve du même coup rehaussé.» [KERBRAT-ORECCHIONI, 1992: 188]
[26] Para uma visão geral da problemática, cfr. KERBRAT-ORECCHIONI, 1994: 1.ª Parte; 1996: caps. 11-13.

Referências

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CINTRA, L. F. L., 19862: Sobre «Formas de Tratamento» na Língua Portuguesa. Lisboa: Horizonte.
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----------- 1974: Les Rites d’interaction. Paris: Minuit.
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----------- 1996: La conversation. Paris: Seuil.
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