sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

DIZ-ME COMO FALAS / DIR-TE-EI COMO ÉS. Comunicação, discurso e cortesia (I).

[O texto que, neste e no próximo post reproduzo, constitui uma versão reduzida e escrita de uma palestra que proferi na Escola Superior de Ciências Empresariais de Valença, do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, no dia 12 de Novembro de 2004. Deveria ter sido publicado, depois, no n.º 3 da revista IPVC-Academia. Tal número, porém, nunca chegou a ser publicado. Entretanto, a revista terminou.]


 
David F. Rodrigues
[ESE-IPVC]


                Ao Professor A. Lima de Carvalho


00. Introdução

As questões que abordarei neste estudo situam-se no âmbito da cortesia linguística. A cortesia linguística é o domínio que, no âmbito das ciências da linguagem, estuda as cortesias e as descortesias verbais. Estas, umas e outras, constituem um dos três ramos em que se podem dividir os comportamentos corteses e descorteses. Os outros dois são os paraverbais e os não-verbais. Cabe referir, todavia, que esta distinção é de natureza analítica. De facto, sendo certo que se podem praticar actos corteses e descorteses apenas não-verbais (pense-se em determinados gestos e movimentos corporais), dificilmente se poderão realizar cortesias ou descortesias verbais que não sejam acompanhadas de comportamentos paraverbais (pense-se na entoação e elevação da voz) e mesmo não-verbais (pense-se nos sorrisos ditos amarelos e simpáticos). Além disso, os actos corteses e descorteses não-verbais são acompanhados, geralmente, de cortesias verbais e paraverbais (por exemplo, quando, numa porta, cedemos e oferecemos, com gesto adequado, a prioridade, acompanhada de um “faça favor de passar”). É, porém, das cortesias e descortesias verbais que apenas falarei. Por uma questão de tempo, mas também porque os discursos-textos que utilizarei, sendo escritos, não apresentam construções e descrições significativas de cortesias ou descortesias, ao nível do paraverbal e do não-verbal.
Retomo a noção de cortesia linguística para observar que, quando se estudam as cortesias e as descortesias verbais, em Português como noutras línguas, verifica-se que elas (umas e outras) são sempre em maior número e com realizações linguísticas e discursivo-textuais muito mais complexas do que as fórmulas e regras que os manuais de etiqueta e boas maneiras prescrevem e os guias de conversação e as gramáticas normativas registam. Nesse sentido, muito embora cortesia linguística e cortesia verbal sejam utilizadas como sinónimos, reservo a expressão cortesia/descortesia verbal para as fórmulas, formas e construções que uma comunidade de falantes-ouvintes e escreventes-leitores reconhece e utiliza como tais. Encontramos o seu registo (sobretudo das cortesias) nos referidos manuais, guias e gramáticas. A cortesia linguística tem, todavia, um objecto mais amplo. É não o estudo científico das cortesias e descortesias verbais reconhecidas por uma comunidade, mas também de todas as outras formas e construções, ainda que não socialmente reconhecidas como corteses ou descorteses. Além disso, incluo, na sua definição, a descrição dos mecanismos linguísticos e discursivo-textuais que estão subjacentes e se manifestam, explícita ou implicitamente, em tais construções, bem como as relações pessoais e interpessoais que com elas os interlocutores (falantes e escreventes) estabelecem e desenvolvem, positiva ou negativamente, entre si e em relação a terceiro(s). A cortesia linguística é, assim, uma teoria que, partindo da análise dos fenómenos verbais corteses e descorteses, visa determinar, descrever e estabelecer os princípios que explicam esses comportamentos. Na noção cabem também, por isso, os diferentes modelos teóricos e metodológicos propostos pelos linguistas que se dedicam ao estudo da Linguística Pragmática.
A cortesia/descortesia verbal é um fenómeno complexo, dada a sua natureza profundamente psico-social e sócio-cultural. Integra, por isso, questões ligadas a várias ciências sociais, com relevo para as da comunicação humana, a entender, necessariamente, como interacção, que em práticas discursivo-textuais, adequadas às situações e ao seu desenvolvimento (contexto), se concretiza. O estudo das cortesias e descortesias verbais, isto é, a cortesia linguística, inscreve-se, assim, com a extensão que lhe atribuímos, no quadro teórico da disciplina Análise do Discurso.
Discorrer, isto é, falar e escrever sobre um determinado assunto, em privado ou em público, é sempre interagir, isto é, entrar e estar em comunicação. Necessário é, por isso, ao iniciar, desenvolver e concluir um processo comunicativo, ter na devida conta tanto o outro, como nós próprios. O outro é, antes de mais, o interlocutor, mas podem ser também o(s) simples ouvinte(s) e assistente(s) [conhecido(s) ou estranho(s), consentido(s) ou não], bem como aquilo de se que fala ou escreve, que podem ser todas ou cada uma destas entidades. Tais atenções reflectem-se nas fórmulas e construções que, mais ou menos corteses, de forma mais ou menos explícita, realizamos nas práticas discursivo-textuais que produzimos e recebemos. Daí que os actos de falar e escrever sejam sempre, por outro lado, também formas de exposição pessoal e interpessoal. Quem fala ou escreve expõe-se, isto é, mostra-se, dá-se a ver e a conhecer, pelo dito, pelo não dito, pelos modos devidos ou indevidos de dizer. Cabe tudo isto no âmbito da cortesia/descortesia verbal, a qual exige, assim, uma permanente vigilância sobre os discursos-textos que se realizam. De uma competência comunicativa e discursivo-textual, portanto, se trata. Parafraseando, por isso, a conhecida sentença popular, direi diz-me como falas, dir-te-ei como és.

 
01. Das acepções de cortesia/descortesia

É a vida em sociedade que nos ensina a ser corteses e descorteses. Por experiências próprias e alheias, aprendemos a praticar e a reconhecer cortesias e descortesias. Os dicionários registam termos e definições que correspondem às concepções lexicais mais ou menos activas que de umas e outras possuímos. Nem sempre completas e coincidentes, como é natural, que não somos, felizmente, enciclopédias ambulantes. Convirá, todavia, começar por recordar o que, entre nós, se entende por cortesia e o seu antónimo. Pode-se recorrer, para o efeito, aos manuais de etiqueta e boas-maneiras, ou aos dicionários. Os primeiros limitam-se à apresentação das regras a cumprir em situações (sobretudo) formais de convivência social. Os segundos registam as acepções e definições que o termo, sinónimos e antónimos recebem numa dada comunidade. Além disso, nos manuais como nos dicionários, não se encontra descrito nem definido, com rigor e extensão, o significado que, em Análise do Discurso, se faz do termo. Encontrar-se-á em dicionários específicos [vg. Charaudeau & Maingueneau, 2002]. É, porém, minha intenção contribuir, com este estudo, para uma mais clara e precisa definição não do que são comportamentos verbais corteses e descorteses, mas também do que é a cortesia linguística. Partirei, não obstante, das definições lexicais de cortesia. Servir-me-ei, apenas, das registadas no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, por considerar que nele se encontram as principais acepções de cortesia em Português de Portugal.

As três primeiras definições que o dicionário regista são:

«1. Acção ou resultado do que é cortês. 2. Comportamento, modo de agir próprios de cortesão, pessoa que vive na corte do reino. 3. Comportamento, modo de agir de alguém que é delicado ou muito bem-educado.» [Mantenho, nesta como em todas as citações presentes neste estudo, a ortografia das edições consultadas.]

                Como sinónimos, o dicionário remete para delicadeza, educação e polidez. E, como exemplos, as frases «Os donos da casa recebiam com muita cortesia os convidados. Os cavalheiros reconhecem-se pela cortesia
Prosseguindo, o dicionário regista, nas duas definições seguintes, que cortesia significa também:

«4. Acto de receber, saudar ou cumprimentar alguém com mesuras, cerimónias e etiqueta, vénias... […] 5. Acto de cumprimentar alguém, inclinando o corpo ou a cabeça, tirando o chapéu, ou fazendo outro gesto que indique saudação

 Acrescenta, como exemplos de 4, as frases «Abriu à senhora a porta do carro como modo de cortesia. Uma regra de cortesia. O beija-mão é uma forma de cortesia.» No final de 5, remete para os sinónimos mesura, reverência e vénia.
A definição de cortesias (atenção ao plural) ocupa a definição

«6. Cumprimentos que, na praça de touros, os cavaleiros, capinhas… fazem ao público e às autoridades, antes e depois da corrida

Cortesia significa, ainda, «O que é oferecido ou dado por qualquer organização comercial ou industrial a clientes, como forma de promoção de um produto». Exemplo: «O rádio foi uma cortesia que lhe fizeram, quando comprou o carro.» São registadas, ainda, as locuções «por cortesia», com o significado de «por delicadeza», «delicadamente», e «por mera cortesia», com o significado de «apenas para cumprir as formalidades».
               O Dicionário da Academia regista, por último, as construções «fazer cortesia com o chapéu alheio» - que significa «mostrar-se generoso à custa do dinheiro, dos haveres… de outrem» - e «ser cavalo de cortesias» - significando «ser escolhido para receber hóspedes, fazer um discurso de recepção.» [DLPCACL (I Vol.), 2001: 999]

               As definições e exemplos dos termos pertencentes à família de cortesia (vg. cortês e cortesmente), dos seus sinónimos (vg. delicadeza, delicadamente e delicado; educação, educadamente e educado; polidez, polidamente e polido, entre outros) e dos seus antónimos (vg. descortesia, descortês e descortesmente; indelicadamente, indelicadeza e indelicado; impolidamente, impolidez e impolido, entre outros) coincidem, no essencial, nas concepções que se tem com os termos cortesia e descortesia. Cabe, todavia, referir que, no dicionário, não se distingue, claramente, comportamentos verbais corteses e descorteses, de comportamentos paraverbais e não-verbais. Fica-se, aliás, com a ideia de que cortesia tem como principal referência virtual os comportamentos não-verbais. O excelente Dicionário Houaiss [Houaiss, 2001: 2250], porém (brasileiro - refira-se), regista, ao definir polidez, a natureza verbal e linguístico-discursiva (se bem que incompleta) do termo, ao referir que é uma

«característica do discurso, que indica cortesia, gentileza, civilidade etc., do locutor (autêntica ou não), e que se expressa esp[ecialmente] nas formas de tratamento, em expressões que atenuam o tom autoritário do imperativo (como por gentileza, por favor, se me permite etc.) e outras fórmulas de etiqueta lingüística».

Vem a propósito observar que os brasileiros preferem o termo polidez e que, em Portugal, se usa sobretudo o termo delicadeza. A minha preferência terminológica é por cortesia. O termo, além da sinonímia, remete, etimologicamente, para a origem e história dos comportamentos assim considerados (cortesia > cortês + ia; cortês > corte + ês). A corte era, como se refere num interessante livro intitulado Codigo do Bom Tom, ou Regras de Civilidade e de Bem Viver no XIXº Século, «a melhor escola para aprender as boas maneiras, as expressões escolhidas, a polidez, a urbanidade e um certo ar e bom tom, que annuncião o illustre nascimento e a boa educação.» E isto, apesar de as cortes e os palácios serem, segundo observa o autor, os lugares «onde mais reina a intriga, a duplicidade e a lisonja», «defeitos» de palacianos e cortesãos aduladores, considerados, por isso, «os maiores inimigos dos Reis e dos povos» [Roquette, 18592: 11]. O termo cortesia passou, com o tempo, a designar a vida e a sã convivência social. Para a vida da corte e dos palácios ficou o termo cortesania. Esta clara distinção encontra-se no Dicionário Morais [Silva, 195110 (vol. 3): 610]:

«Cortesia é a demonstração externa de respeito, comedimento, urbanidade e bom modo, para com todos os nossos semelhantes, conforme prescreve a boa educação. Cortesania é a prática das civilidades da corte e o requinte da cortesia segundo os usos, estilos e maneiras mais apuradas dos que frequentam a corte. O primeiro é próprio do homem cortês; o segundo é próprio do cortesão

Numa concepção alargada de cortesia, cabem, assim, todas as acepções lexicais antes referidas. Cortesia é, assim, um arquilexema que recobre significados expressos (além dos referidos), por outros termos, como amabilidade, bons modos, bom tom, cavalheirismo, civismo, conveniência, honraria, deferência, modéstia, respeito, tacto, trato, urbanidade, etc.

Para designar o inverso da noção de cortesia, utilizo, morfo-logicamente, o termo descortesia. Na sua definição extensiva, incluo tanto a ausência de comportamentos corteses como os descorteses. A calúnia, a injúria e o insulto serão as suas expressões máximas e por isso mais nítidas, embora não as mais frequentes. As cortesias são a regra, as descortesias a excepção. Como curiosidade, eis a lista das descortesias que, em meados do século XIX, o referido Código do Bom Tom inventariava: «calumnia, maledicencia, murmuração, mentira, graças pesadas, palavras injuriosas, revelação de segredo confiado, espirito de contradicção, porfias, teimas, remoques, chascos, sotaques, graçolas, dichotes, chufas, zombarias e facecias indecentes ou burlescas» [Roquette, 18592: 149].


02. Da cortesia linguística

O estudo da cortesia/descortesia verbal, ou seja, a cortesia linguística, será sempre um estudo simultaneamente transcultural e translinguístico. Transcultural, porque os comportamentos corteses e descorteses resultam, afectam e atravessam, a nível psico-social e sócio-cultural, os indivíduos duma comunidade, ainda que em graus, quantidade, conhecimento, consciência, desempenhos e avaliações diferentes. Translinguístico, porque são considerados não os valores de cortesia e de descortesia constituídos em língua ou sistema, mas também os valores pragmáticos da mesma natureza que fórmulas, formas e construções adquirem, nas diferentes situações e práticas discursivo-textuais realizadas.
As cortesias e descortesias verbais são desempenhos, portanto, de uma competência discursivo-textual, que é, por sua vez, uma dimensão da competência de comunicação. Comunicar verbalmente não é construir frases gramaticalmente correctas e mais ou menos bem alinhadas, que, todavia, quando tal não acontece, são entendidas como descortesias. É por isso que, cometido um lapsus linguæ, uma calinada, um locutor (cortês) pede desculpa e autocorrige o lapso. O mesmo acontece, quando se tem consciência de que o discurso-texto produzido não está devidamente construído. «Desculpa o desarrazoado, estou com pressa, e se deixo para amanhã... é o costume!», escrevia, há tempos, uma colega, no fim de carta electrónica. De facto, comunicar verbalmente é também saber interagir, pôr em comum, como a própria etimologia da palavra indica. É, por isso, saber realizar práticas discursivo-textuais, cumprindo, melhor dizendo, sabendo cumprir, consoante os contextos e a sua dinâmica, as normas sociais, culturais, gramaticais e discursivas que governam a vida duma sociedade. Saber comunicar verbalmente é, assim, «saber viver», que através dum «saber dizer» (que é também um «saber fazer») se concretiza. Em resumo, como escreve Bury [1995: 531]:

«Le langage est un élément primordial dans le domaine du savoir-vivre: en effet, la compétence linguistique rejoint souvent l’exigence de la distinction. Le langage est à l’évidence une des clés de la “rhétorique sociale” que constitue le savoir-vivre. Le savoir-vivre est en effet un “art de persuader” dont le langage est un vecteur essentiel, avec les gestes et les “manières” en générale. Le langage est aussi le lieu par excellence de la reconnaissance sociale.»

Todas as práticas sócio-verbais (orais ou escritas, formais ou informais, correntes ou ficcionais) são sempre, por isso, percorridas e mais ou menos explicitamente marcadas por fórmulas, expressões e construções de cortesia, destinadas ora a atenuar os comportamentos descorteses, voluntária ou involuntariamente praticados, ora a produzir comportamentos corteses e a intensificá-los. De referir que as descortesias verbais também podem ser intensificadas (E de que maneira!), tanto através de actos descorteses verbais, como paraverbais e não verbais. Lembrem-se, por exemplo, os palavrões, o tom de voz e os gestos manuais, uns e outros altamente ofensivos, com que alguns automobilistas, por exemplo, reagem ao comportamento de outros condutores e mesmo de pobres peões.
Entendidos como estratégias, os comportamentos corteses visam, ao nível as relações interpessoais, estabelecer, manter ou recuperar proximidades e equilíbrios, enquanto os comportamentos descorteses visam estabelecer, manter ou acentuar distâncias e desequilíbrios. Acontece, porém, que tais comportamentos, uns e outros, servem também para alcançar fins ou efeitos não imediatos de cortesia ou descortesia. São utilizados, então, como cortesias ou descortesias estratégicas, isto é, como meios destinados a atingir outros fins, confessados ou inconfessados, e mesmo inconfessáveis. Neste sentido, as cortesias e as descortesias verbais funcionam como processos retóricos de argumentação discursivo-textual. Com efeito, afirmava , nos princípios do século passado, Charles Bally [(1913) 19653: 21]:

«La langue de conversation est régie par une rhétorique instinctive et pratique; elle use, à sa manière, des procédés de l’éloquence, ou, pour mieux dire, c’est à elle que l’éloquence a emprunté ses procédés. En effet, pour l’énoncé des moindres choses, il faut que la pensée devienne une action et s’impose par le langage; il faut que celui-ci se fasse tantôt pénétrant, incisif, énergique, volontaire, tantôt vibrant, passionné, tantôt humble et suppliant, souvent même hypocrite.»

[Continua]
[As referências biográficas aparecerão no final do próximo post.]

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Cortesia linguística e interjeição em Português Europeu

[O texto que reproduzo, neste post, com as adaptações à sua edição neste espaço, foi primeiramente apresentado ao XIX Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística (Lisboa, 1, 2 e 3 de Outubro de 2003). Encontra-se publicado no volume das respectivas Actas (…), Lisboa, 2004, pp. 653-665.]



David F. Rodrigues
ESE-IPVC

«Dans la perspective d’une théorie des actes de langage, l’interjection ne peut plus être considérée comme un phénomène marginal ou insignifiant. Elle acquiert un statut central: c’est le lieu privilégié où se marque l’interaction des individus.» (Sirdar-Iskandar, 1980: 161)

Apesar da quantidade e recorrência, a nível sobretudo oral ou em representações escritas de oralidades, e dos valores pragmáticos que expressam e desempenham, nas diferentes interacções verbais, as interjeições têm sido geralmente esquecidas e pouco estudadas. Nos últimos tempos, porém, têm vindo a merecer uma renovada atenção de linguistas, em particular daqueles que se situam em domínios da Análise Discursivo-textual.
Como outras fórmulas, também as interjeições servem para expressar, consoante os contextos e cotextos, efeitos de cortesia e/ou de descortesia verbal e, assim, revelar ou estabelecer também relações interpessoais simétricas ou assimétricas de distanciamentos horizontal (proxémicas)  e/ou vertical (taxémicas).
Procurar-se-á analisar, nesta comunicação, tais efeitos, no quadro geral do Cortesia Linguística, entendida, por um lado, como uma dimensão fundamental da competência discursivo-textual e, por outro, como domínio linguístico de estuda dos comportamentos verbais corteses e descorteses.[1]
A teoria de descrição e análise adoptada (e adaptada) é a proposta por Catherine Kerbrat-Orecchionni. Trata-se de um modelo teórico ecléctico, como se verá, e que a conhecida linguista expõe, sobretudo, em Les Interactions Verbales II (1992), com versão resumida ao essencial, em La Conversation (1996).
Não se dedicará atenção especial à definição, estatuto, classificações e descrições que gramáticos e linguistas, nacionais e estrangeiros, têm dado da interjeição. Tal problemática encontra-se devidamente exposta, nos estudos que Miguel Gonçalves tem dedicado a este fenómeno linguístico, particularmente, em Gonçalves, 2002.
As interjeições serão entendidas, nesta comunicação, independentemente da sua complexidade constitutiva e grau de autonomia referencial (geralmente muito reduzida ou mesmo nula), como fórmulas discursivo-textuais que também podem realizar, consoante o contexto e cotexto das práticas em que ocorram, actos directores ou subordinados de cortesia e/ou de descortesia. Actos, uns e outros, intencionalmente orientados para lesar (ferir, ofender, ameaçar) ou para valorizar (elogiar, preservar) as faces do(s) interlocutor(es) e/ou de terceiro(s), presente(s) ou ausente(s), encontre(m)-se o(s) primeiro(s) em situação efectiva de interlocução ou não.
A Cortesia Linguística, enquanto modelo de descrição e análise, parece ser domínio ainda pouco estudado e conhecido, em Portugal.[2] Começar-se-á, por isso, pela sua apresentação teórica, ainda que necessariamente breve. Observe-se, entretanto, o esquema seguinte (Fig. 1), onde se procura situar a Cortesia Linguística no quadro da Cortesia Geral.
A Cortesia Verbal constitui um ramo da Cortesia Geral. Esta inclui também as cortesias e descortesias não verbais e paraverbais. Os comportamentos socioverbais, realizados em práticas discursivo-textuais, constituem o objecto da Cortesia Linguística, onde cabem também as teorias e modelos de sua descrição e análise, as regras e regularidades, inventariadas e descritas por gramáticos e linguistas da língua ou sistema, bem como o conjunto das formas e fórmulas verbais corteses e/ou descorteses. É por isso que se entende a Cortesia Linguística, por um lado, como uma competência discursivo-textual e, por outro, como o estudo translinguístico das cortesias e descortesias verbais.
Todas as práticas socioverbais [orais ou escritas, formais ou informais, correntes ou ficcionais (incluindo as literárias)] são expressões, ou formas e construções que se apresentam sempre mais ou menos marcadas, explícita ou implicitamente, por cortesias e/ou descortesias. As cortesias verbais destinam-se ora a atenuar comportamentos descorteses, ora a produzir e/ou a intensificar comportamentos corteses. As descortesias podem ser também intensificadas através da repetição e/ou acumulação de actos verbais, paraverbais e não verbais descorteses.
Tais formas e construções, como estratégias de cortesia e/ou de descortesia, visam estabelecer equilíbrios ou desequilíbrios interpessoais, existentes, presumidos ou desejados. Servem também (e a maior parte das vezes) para alcançar fins não imediatos de pura cortesia ou descortesia. Neste último caso, são utilizadas como cortesias ou descortesias estratégicas, com objectivos argumentativos de efeitos perlocutórios mais ou menos evidentes. Convém distinguir, portanto, estratégias de cortesia ou descortesia, de cortesias ou descortesias estratégicas. É por isso que uma perspectiva retórica, de natureza dialógica e polifónica, acompanha sempre a análise dos comportamentos verbais corteses ou descorteses, que retóricos são também os interlocutores, nas suas práticas discursivo-textuais.

É difícil não se ter em consideração, pelo menos depois dos estudos do «Círculo Bakhtine» (Bakhtine1970 e 19926, e Bakhtine & Volochínov, 1981 e 1992), a natureza intrinsecamente interaccional da linguagem verbal, quando se estudam os fenómenos discursivo-textuais e os mecanismos que lhes estão subjacentes. As formas e construções corteses e/ou descorteses encontram-se, por isso, tanto nas interacções verbais em sentido estrito (nas chamadas interlocuções, diálogos, conversas ou conversações), como nas interacções verbais em sentido lato (nas chamadas alocuções, ou comunicações ditas – impropriamente ditas, diga-se - unidireccionais). Ainda que seja nas primeiras onde se encontram, em maior número, variedade e grau, os actos de cortesia e/ou de descortesia.
Falar e escrever é sempre interagir, porque partilhar, cooperar, comunicar. Os interactantes (interlocutores efectivos ou não) agem (melhor, co-agem) sempre uns sobre os outros, directa ou indirectamente, em presença ou em ausência, mediata ou imediatamente. Vendo e dando a ver, se necessário, de si próprios e do interlocutor ou terceiro(s), não o que de facto se é, mas também o que se deseja ser, ou deseja que o(s) outro(s) seja(m) [ou interessa ser, isto é, parecer, ou que o(s) outro(s) seja(m), isto é, pareça(m)], naquele momento ou noutro, passado ou futuro. Para isso e por isso, isto é, porque sempre em interacção, é que quem fala ou escreve sempre é - terá de ser - mais ou menos cortês ou descortês, mesmo em situações de monólogo ou solilóquio.

Catherine Kerbrat-Orecchioni constrói o seu modelo ecléctico de descrição e análise da cortesia verbal sobre as teorias fundadoras de Lakoff (1973), de Leech (199610) e, sobretudo, de Brown & Levinson (19966). As teorias de Lakoff  e de Leech  assentam nas Máximas de Cortesia e no Princípio de Cortesia, enquanto a de Brown & Levinson num conjunto de estratégias de cortesia. Através destas, os interlocutores, dada a «natureza agressiva» das relações humanas, procuram atenuar os actos que ameacem as faces, tanto as do(s) outro(s) como as próprias. Todas estas teorias se fundamentam, por seu turno, na conhecida Teoria Ilocutória dos Actos de Fala, proposta por Austin (1970) e depois desenvolvida por Searle (1981, 1982), no seu Princípio de Cooperação e nas Máximas Conversacionais de Grice (19954), e, fundamentalmente, nas Teorias da Face e Territórios do Eu de Goffman (1973, 1974).[3]
O modelo de Kerbrat-Orecchioni apresenta uma concepção mais optimista das relações humanas. Considera, por isso, que nas interlocuções não se realizam apenas Actos Ameaçadores de Face (FTA, mantendo-se a sigla de Face Threatening Act), como defendem Brown & Levinson, que é preciso evitar ou atenuar, mas também Actos Valorizadores de Face (FFA, Face Flattering Act), noção complementar daquela. Por outro lado, a linguista francesa precisa as noções de cortesia negativa e de cortesia positiva, pouco claras na teoria de Brown & Levinson. Nesse sentido, considera a primeira de natureza abstencionista (não realizar actos descorteses), ou substitutiva e compensadora (se o locutor, não podendo evitar um FTA, o substitui por outro menos lesivo e/ou compensa, de alguma maneira, os danos que com ele possa causar). A cortesia positiva, por seu turno, é de natureza produtiva, porque serve para realizar um ou mais FFA’s, essencialmente orientados para o alocutário. Esclarece, ainda, as noções de face negativa e de face positiva, fazendo corresponder à primeira os territórios goffmanianos e à segunda o narcisismo, dir-se-á melhor, a auto-estima, que todo o ser humano possui, em maior ou menor grau.

Com base neste modelo, elaborou-se o esquema seguinte (Fig. 2), no qual se procura sintetizar o essencial dos fenómenos verbais corteses e descorteses. Um acto de cortesia ou de descortesia, ao ser proferido, provoca sempre um efeito de boomerang.

Articulando e cruzando os pares ou eixos Princípios orientados para as faces do A[locutário] vs. Princípios orientados para as faces do L[ocutor], e, dentro destes, as noções de Cortesia Negativa vs. Cortesia Positiva, e de Face Negativa vs. Face Positiva, verifica-se que, numa situação diádica interlocutiva, são sempre quatro (pelo menos) as faces em presença e alvo de potenciais ameaças (FTA’s) ou valorizações (FFA’s). Assim, um FTA ou um FFA, ao atingir, directamente (setas de cauda contínua), uma ou ambas as faces de A ou de L, atingem sempre, também, mas indirectamente (setas de cauda tracejada), a(s) própria(s) face(s) daquele que fala ou escreve.
Os meios e mecanismos de construção e expressão de cortesia e descortesia verbal agrupam-se em actos de cortesia negativa (isto é, que atenuam FTA’s) e de cortesia positiva (isto é, que constituem FFA’s), formando os respectivos conjuntos categorias abertas. Os primeiros constituem realizações substitutivas ou acompanhantes de FTA’s, enquanto os segundos são realizações produtivas de FFA’s. Trata-se, porém, num caso como noutro, de processos cumuláveis, fenómeno que nos leva a estabelecer uma distinção entre FFA de Cortesia Negativa, isto é, que acompanha a realização de FTA’s, e FFA de Cortesia Positiva, isto é, que acompanha a realização de FFA’s. O primeiro serve, assim, para intensificar a atenuação de um FTA, enquanto o segundo serve para intensificar a valorização de FFA’s. Trata-se, no fundo (e em síntese), da atenuação de descortesias, no primeiro caso, e da intensificação de cortesias, no segundo.

É neste quadro teórico da Cortesia Linguística, brevemente esboçado, que se vai situar, agora, a problemática das interjeições portuguesas e dos valores corteses e/ou descorteses que elas podem expressar, consoante os contextos e cotextos em que ocorram. O seu uso, sobretudo daquelas cuja realização mais se aproxima dos sons instintivos produzidos pelo homem[4], («gritos articulados de sentido afectivo», chama-lhes  Gonçalves, 2002: 351), tais como Ah!, Eh!, Ei!, Hã!, Nh!, Ai!, Ui!, etc., é socialmente visto como uma descortesia ou, pelo menos, como um comportamento socioverbal pouco cortês. Os manuais de bom tom, etiqueta ou boas maneiras prescrevem que

«Se não percebemos qualquer coisa que nos digam, nunca deveremos perguntar “O quê?”, e muito menos “Hã?”, pois há outras expressões bastante mais delicadas, como por exemplo, “Desculpe, não percebi o que disse”, ou simplesmenteComo?”» (Gião, 1988: 144)

A propósito, e como exemplo, veja-se a reacção de Rola, em Terras do Demo, ao emprego duma interjeição deste tipo, pela mulher:

«- Dize , Florinda [...], se hoje larapiasses dinheiro, que é um supor, e tivesses de o esconder, onde é que o metias?
- Sei ! [...] Num buraco.
- Mas ouve, cabeça de arolo, há esconder e esconder. Esconder coisa de que ninguém deu e de que ninguém anda à coca, é um cantar; esconder coisa que deu nas vistas e que escape ao lúzio do mais pintado, é outro cantar. Estás percebendo?
- Ham?
- Ham, zurram os burros.
- Entendo-te , homem!
- Se suspeitasses que vinham a descobrir a ariosca, onde o metias?»
(RIBEIRO, 1983b: 98. Itálicos da nossa responsabilidade.)

A intervenção de Rola, comentando e censurando o uso da interjeição Ham?, mostra que o uso destas fórmulas não são próprias de gente, mas de animais. Ou seja, o seu emprego é uma descortesia, não em relação ao alocutário, mas também em relação ao próprio locutor, conforme resulta da metáfora depreciativa utilizada na réplica.
Mas estas interjeições são não lexicais, próximas do «grito». Passar-se-á o mesmo com as interjeições lexicais, isto é, aquelas que constituem lexemas e expressões dotadas duma relativa autonomia referencial? Vejamos.
Se se analisar uma lista das interjeições portuguesas, verificar-se-á que várias delas apresentam valores semântico-pragmáticos lexicalizados e gramaticalizados de cortesia ou de descortesia. Além disso, umas estão mais orientadas para a valorização das faces dos alocutários (FFA’s), enquanto outras estão mais orientadas para ameaça dessas mesmas faces (FTA’s). Isto, em contextos e cotextos não irónicos, como é evidente.
Reúnem-se, no quadro seguinte (Fig. 3), as interjeições que se consideram orientadas para as faces do alocutário (A-orientadas), ora para as valorizar (FFA’s), ou para as ameaçar (FTA’s). Há, porém, outras interjeições que, mais uma vez e sempre consoante os co(n)textos, tanto podem ser FFA’s como FTA’s. Trata-se, no primeiro caso, de interjeições que, proferidas com o sentido de, por exemplo, advertir alguém de perigo eminente, ou de ajuda e incentivo a acção, realizam ou acompanham FFA’s. No segundo caso, visam efeitos contrários e realizam ou acompanham a realização de FTA’s. Colocam-se, na coluna «Mistas», tais interjeições.[5]
Estas interjeições constituem apenas uma selecção das inúmeras que é possível encontrar nas práticas discursivo-textuais em Português Europeu. Descrever-se-ão, de seguida, os valores que uma interjeição, de cada um dos conjuntos, pode expressar, ao nível da cortesia ou descortesia.
Considere-se, por exemplo, a interjeição «Alto!», acompanhada ou não de partículas de reforço e apelo. O DLPACL dá dela as seguintes definições:

«1. Voz de comando usada para mandar parar ou suspender determinada acção ou actividade. Alto!, gritou o polícia, levantando a mão. 2. Usa-se para manifestar desacordo com o que acaba de ser dito e para interromper o discurso. alto , o m[esmo] que alto. Alto que esse carro é meu! alto , o m. que alto. Alto , não te admito que me fales dessa maneira.» [DLPCACL, 2001 (vol. I): 191]

As definições 1 e 2 podem situar a utilização desta interjeição, no âmbito dos fenómenos descorteses, uma vez que se trata de actos directivos que lesam, de algum modo, as faces do alocutário, ao serem realizados sem atenuadores. Cabe observar, porém, que o primeiro exemplo não cabe nos fenómenos da (des)cortesia, por se tratar de uma ordem dada por uma autoridade legítima (um polícia) e em co(n)texto presumivelmente adequado.
A definição 1 pode verificar-se, todavia, noutras situações, ainda com objectivos ilocutórios directivos, mas com efeitos perlocutórios diferentes, ao nível dos benefícios que podem reverter ou não para o alocutário. Imagine-se, por exemplo, o seguinte co(n)texto de ocorrência. Um condutor pára o automóvel numa via inclinada, descuida-se e a viatura começa a deslizar em direcção a uma parede. Um transeunte apercebe-se e grita, batendo no veículo:

(1) Alto! Alto!

O aviso preocupado interjectivo é, neste caso, um acto A-orientado cortês, pois o efeito desejado é a protecção da face negativa (o «território» automóvel) do alocutário. Trata-se, por isso, dum FFA, ao nível do efeito, cuja realização exige, como contrapartida, um acto reparador da parte do alocutário. Um «Obrigado!», pelo menos, se competente for, minimamente, no conhecimento e exercício da cortesia.
Imagine-se, agora, que o peão se encontra entre a viatura e a parede. O grito interjectivo «Alto!» seria descortês, um FTA, uma vez que o efeito desejado reverteria a seu favor, na protecção da sua face negativa (o «território» corporal). O acto reparador formulado pelo condutor não seria de agradecimento, mas de desculpa. Ainda que devesse também agradecer, pois que o aviso ter-lhe-ia evitado responsabilidades civis e, eventualmente, prejuízos materiais. Neste sentido, a última ocorrência da interjeição é, numa primeira instância, descortês para o automobilista e cortês para o peão, mas, numa segunda instância, também cortês para o distraído condutor.
A definição 2, referindo que a interjeição «Alto!» se usa para manifestar desacordo e/ou interrupção da intervenção do interlocutor, situa as suas ocorrências no âmbito da descortesia. Se não forem acompanhadas de atenuadores, evidentemente. A interjeição é, nesses casos, um FTA que lesa as faces positiva e/ou negativa do alocutário, tratando-se, por isso, de actos mais ou menos descorteses. O sentido geral para a descortesia de tal interjeição prender-se-á com o facto de ela, como informa o Dicionário, ter a sua etimologia na forma alemã «halt!, imp[erativo] de hakten», que significa parar. [DLPCACL, 2001 (vol. I): 191] Valor semântico-pragmático que se mantém em Português e que, por isso, é também utilizada como forma substituta do imperativo, no sentido de proibição, isto é, de acção ou actividade física ou verbal que não deve ser iniciada ou concluída.
As interjeições A-orientadas da coluna dos FFA’s realizam actos de cortesia positiva, através dos quais L valoriza e/ou enriquece as faces positiva e/ou negativa de A. É o caso das interjeições que expressam, em relação a A, por um lado, felicitações, elogios, cumprimentos, incitamentos, etc., e, por outro, as que expressam ou compartilham sentimentos de pesar, de dor, de compaixão, etc. Sejam, por exemplo, as interjeições «Viva!», para o primeiro conjunto, e «Coragem!», para o segundo.
Informa o Dicionário que «Viva!» é uma interjeição que «traduz aclamação, saudação festiva, júbilo», como, por exemplo em

(2) Viva! A nossa equipa venceu o campeonato. [DLPCACL, 2001 (vol. II): 3769]

Neste caso, a interjeição é um FFA: trata-se duma valorização das faces dos adeptos, no conjunto dos quais se inclui L.
Quanto a «Coragem!», o Dicionário refere que L, ao utilizar esta interjeição, visa «incutir ânimo, força perante o sofrimento ou qualquer dificuldade», como em

(3) Coragem!, tudo se há-de resolver. Coragem!, a dor vai passar. [DLPCACL, 2001 (vol. I): 972]

Ainda que a interjeição encerre directividade (um conselho e/ou um desejo), trata-se de um FFA: está orientado para a protecção da face positiva de A, ao ser uma manifestação de solidariedade para com ele, consolando-o e incentivando-o a vencer uma situação difícil.
As interjeições lexicais A-orientadas que realizam ou acompanham a realização de FTA’s são descorteses, porque constituem ameaças para as faces de A’s. Trata-se de expressões através das quais L reprova, abomina, critica, se indigna, se revolta, se distancia, etc., em relação a alguém e/ou ao seu comportamento, por um lado, ou se satisfaz, alegra, congratula, etc., com o mal que fez ou sucedeu a A, presente ou ausente, por outro.[6]
É o que se verifica, por exemplo, com o uso da expressão «Bem, bem!», que, segundo o mesmo dicionário, «exprime repreensão, censura ou reprovação», como em

(4) Bem, bem! Olha que sabes como elas te mordem! [ii] [DLPCACL, 2001 (vol. I): 510]

Ou, então, com a locução «Bem feita ou feito!», que serve «para indicar que, na opinião do locutor, o mal que acontece é merecido», exprimindo também «satisfação pelo mal sucedido a alguémComo, por exemplo, em

(5) Se não fosse o aquecimento central – confessava o Monsenhor – morria de frio. Era muito bem feito! Fosse para a natureza, para a fora, para o frio. [DLPCACL, 2001 (vol. I): 510]

É, pois, a face positiva e/ou a face negativa de A que é mais ou menos atingida e lesada por estas interjeições. Situam-se, por isso, no âmbito dos fenómenos verbais da descortesia.
Os valores pragmáticos de cortesia ou de descortesia, que as expressões interjectivas lexicais podem exprimir, tornam-se mais evidentes, ao manipular-se o seu emprego. Procedendo-se ao teste da comutação, verifica-se, por um lado, queexpressões interjectivas que podem funcionar como quase-sinónimos, mas, por outro, que nem todas as substituições são possíveis, uma vez que tornam o enunciado agramatical ou de aceitabilidade duvidosa, ao nível da pragmática da gramática das relações de cortesia, pelo menos. Considere-se, por exemplo, a seguinte troca verbal.

(6)  P1 – Então, F., acabou o curso?!...
  F1 – Sim, sr. professor.
  P2 – Parabéns!
  F2 – Obrigado!

A segunda intervenção do Professor (P2) é constituída apenas pela interjeição «Parabéns!», através da qual felicita o êxito de F. Não cuidando, agora, o tipo de relação interpessoal que as formas interjectivas também expressam, pressupõem ou estabelecem, entre L e A, a interjeição de felicitação pode ser substituída, entre outras, por

(7) – Muito bem! / Bravo! / Viva! / Boa! / Bestial / Sim senhor! / Óptimo! / Estupendo! / Magnífico! / Excelente! / Porreiro! / Maravilha! / Formidável!,

mas não, entre outras, por

(8) – *[Cruzes! / Livra! / Safa! / Ora bolas! / Francamente! / Essa é boa! / Credo! / Pudera! / Bem feita! / Raios te partam! / Valha-te Deus!][8]

Termina-se esta breve exposição sobre os valores corteses e descorteses que as interjeições portuguesas podem expressar, com uma análise, também breve, de uma interacção verbal, inscrita no conto «Mestre grilo cantava e a giganta dormia», de Aquilino. Trata-se, como se verá, duma sequência polémica, onde as interjeições, enquanto expressão de descortesias, desempenham, por um lado, um papel importante na organização e configuração discursivo-textual do diálogo e, por outro, no estabelecimento e manutenção duma relação interpessoal conflituosa.
Co(n)textualizando-se o diálogo, temos que, irritada com o permanente cantar do Grilo, que assim não a deixava dormir o soninho descansado, a Abóbora, sua vizinha, gritou-lhe, certa noite:

[A1] – Eh , seu casaca! Você não pode calar a caixa? Com tal brequefesta  como hei-de eu dormir?!
[G1] – Ora a palerma! – retorquiu o grilo escandalizado - Não querem ver, tem-se na conta de menina e é tão mona. Ah! Sua calaceira, cante, cante connosco a chamar o Sol que se não demore muito detrás dos montes e nos traga alegria e claridade.
[A2] – Estou mesmo para isso! Olhe, sabe que mais, outro ofício e deixe dormir quem tem sono.
[G2] – Outro ofício!... Essa não é má! Saiba, sua estúpida, que eu nasci para cantar. Tenho- -o como um dever. Quando não cantar, rezem-me por alma[9]
(RIBEIRO, 1989: 12-13)

É com uma locução interjectiva - Eh – constituída por uma interjeição «grito» (Eh) e por uma partícula enfática (), seguida dum vocativo, que é um tratamento insultuoso com valor também interjectivo - seu casaca - que a Abóbora, com [A1], se dirige ao Grilo. A Abóbora visa, assim, chamar a atenção do Grilo para o comportamento que ele está a ter, visto e sentido, simultaneamente, como estranho, desagradável e reprovável. Procura, deste modo (nestes modos), impedir que o Grilo continue a cantoria, objectivo que o acto injuntivo director - «Você não pode clara a caixa?» - realiza, apesar de indirectamente proferido, e o acto justificativo (subordinado) seguinte reforça - «Com tal brequefesta como hei-de eu dormir?».
Trata-se, por isso, duma intervenção que fere a face dupla do Grilo. A face negativa, porque lhe invade o território, porque o invoca depreciativamenteseu casaca»), porque lhe dirige um acto injuntivo, ainda que seguido de justificação, e porque lhe compara, depreciativamente, a actividade a uma «caixa» e a uma «brequefesta». A face positiva, porque é a autoestima do Grilo que é ferida, não através destes processos ora referidos, mas também através dos insultos que lhe dirige.
É também com uma locução interjeictiva – Ora a palerma! que inclui também um tratamento insultuoso, que o Grilo reage, expressando estranheza, indignação, desprezo e desvalorização pela Abóbora e pelo que ela acaba de dizer. Reacção emotiva intensificada, quando, em vez de responder directamente a [A1], ele convoca terceiros, através duma fórmula interlocutória também ela interjectiva - Não querem ver para lhe desfigurar, de seguida, a face pública de falsa meninatem-se na conta de menina e é tão mona).
Este processo de referência delocutiva (melhor, alocutivo-delocutiva) é uma estratégia de descortesia. O locutor trata e refere-se ao interlocutor como um ausente, recusando, por um lado, participar de imediato na interacção verbal por ela iniciada e, por outro, dando início a outra troca verbal, de que o interlocutor é aparentemente excluído, ainda que tema desta nova troca verbal (incompleta, porque retórica). Trata-se, por isso, duma estratégia dialógica e polifónica de distanciamento descortês em relação à Abóbora. depois é que o Grilo se lhe dirige directamente, começando também por uma interjeição que, mais que confirmar o contacto, o estabelece, negativamente, porque realizado através de uma interjeição e de um insulto, também interjectivo – Ah! Sua calaceira.
Cabe observar que, com esta intervenção complexa, através da qual, por um lado, com [G1], não responde directamente ao acto director de [A1] e, por outro, propõe à Abóbora um tema de conversa diferente, o Grilo acentua a conflitualidade e as relações de descortesia estabelecidas entre ambos.
Que a Abóbora não estava nada predisposta para a cantoria, di-lo ela na intervenção reactiva, através do enunciado interjectivo irónico – Estou mesmo para isso! – dando de imediato início a uma nova troca verbal, com [A2]. Recorre, para o efeito, mais uma vez, a construções preactos que apresentam, ao mesmo tempo, valores de natureza injuntiva (imperativos), fática (contacto e orientação discursiva), enfática (intensificação) e interjectiva (sentimentos) - Olhe, sabe que mais, outro ofício. Preactos que são de considerar preparatórios do acto director – deixe dormir quem tem sono - e que constitui uma reformulação que explicita e reforça a injunção realizada (tentada), com «Você não pode clara a caixa?», em [A1]. Desta feita, porém, a Abóbora não recorre a insultos nem a referências depreciativas. Aliás, a Abóbora, apesar de tudo, dirige menos insultos e é menos descortês que o Grilo.
O Grilo tenta continuar este «diálogo de surdos», retomando e repetindo o acto interjectivo Outro ofício!, transformando-o em acto director, quando para a Abóbora mais não era do que a expressão (interjeição) de desagrado pela e de desvalorização da actividade do interlocutor. O acto director de [A2] continua a ser que o Grilo se cale e que a deixe dormir. Ao tomar, porém, Outro ofício! como acto director, na intervenção [G2], o Grilo não desvaloriza e desconsidera, mais uma vez, a face positiva da interlocutora, como também denega o objectivo ilocutório por ela pretendido. Denegação que é reforçada por mais uma locução interjectiva irónica – Essa não é má! que, além dos valores de estranheza e discordância, funciona também como avaliação negativa da injunção tentada.
O Grilo ridiculariza, desse modo, a interlocutora, ao afirmar, ironicamente, que ela não sabe o que diz. Daí os preactos de natureza fática e enfática, também interjectivos, além de directivos e insultuosos, e por isso descorteses, com que o Grilo inicia a última intervenção – «Saiba, sua estúpida que eu nasci para cantar. Tenho-o como um dever. Quando não cantar, rezem-me por alma.» É com esta última intervenção que o Grilo responde, de facto, à questão inicialmente posta por A - «Você não pode calar a caixa? Com tal brequefesta como hei-de eu dormir?!» - depois repetida, por reformulação, em [A2], com «deixe dormir quem tem sono
São evidentes as várias funções que, nesta interacção verbal polémica, desempenham as expressões interjectivas destacadas ao nível da estruturação da sequência dialogal e, sobretudo, ao nível das relações interpessoais que os interlocutores estabelecem e desenvolvem. A este nível, são evidentes as funções fáticas de estabelecimento e/ou de manutenção de contacto, com que, através das interjeições, os interlocutores sistematicamente se interpelam um ao outro. É criada, assim, uma relação de claro conflito, com emoções e sentimentos extremados, que as interjeições expressam de modo intenso, a par dos insultos (também eles fáticos, enfáticos e interjectivos), ao mesmo tempo que anunciam, orientam e intensificam os actos directivos realizados com intenções de ordem, mas que a relação interpessoal estabelecida e desenvolvida, fortemente antagónica e descortês, fez redundar em actos discursivos completamente falhados. Aliás, quando dois interlocutores dirigem ordens um ao outro é porque entre ambos não existe uma relação de poder e nenhum deles se encontra obrigado, por isso, a cumpri-las.
Fica assim clara, a nosso ver, a importância que as expressões interjectivas têm ao nível das práticas discursivo-textuais e das relações interpessoais (corteses e descorteses) que através delas também se estabelecem e manifestam, como expressões que são também duma competência discursivo-textual de cortesia e/ou de descortesia.



[1] Cf.  Rodrigues, 2002. Para uma síntese teórica da Cortesia Linguística e sua aplicação à análise de algumas formas de tratamento, corteses e descorteses, em Português Europeu, cf. também Rodrigues 2000.
[2] São de referir, não obstante, os estudos de Carreira, 1995/1997 e 2001, e de Medeiros, 1985. Este último centrado, unicamente, nas formas de tratamento, segundo uma perspectiva sociolinguística.
[3] Todos os anos indicados referem-se às datas das edições consultadas. Para os anos das primeiras edições, ver «Referências».
[4] Herculano de Carvalho observa que está na «origem dos significantes interjectivos nas suas formas mais típicas, - como ah!, ó!, ai!, ui!, arre!, irra!, etc. – não qualquer cópia ou imagem intencional de um objecto sonoro, mas sons que, produzidos pelo homem, constituem prolongamentos externos, com carácter instintivonão intencional, portanto -, de estados emocionais, de perturbações internas de natureza psico-física, como são o grito – de dor, de surpresa ou medo, de alegria -, o gemido, o suspiro, etc.» Estes «puros indícios, da mesma natureza que um esgar de dor, ou que os sons emitidos pelos animais» transformaram-se, com o tempo, em interjeições plenamente constituídas, ganhando um carácter intencional, uma forma constante e um valor significativo, ao serem produzidos «repetidamente pelos mesmos sujeitos numa série de actos determinados por circunstâncias similares». (Cf. CARVALHO, 1973 (Tomo I): 194 a 198)
[5] Para a distribuição destas interjeições, segundo os seus valores de cortesia e/ou de descortesia, servimo-nos, por um lado, da nossa experiência pessoal e das definições que se encontram no DLPCACL.
[6] Os termos em itálico resultam das definições que o DLPCACL dá de interjeições que, em nosso entender, ameaçam a(s) face(s) do alocutário (FTA’s).
[7] O exemplo é retirado do livro Cavalo do Lenço Amarelo (p. 20), de Mário Castrim.
[8] O asterisco marca a agramaticalidade de todas as expressões interjectivas, naquele contexto, colocadas entre parênteses rectos.
[9] Segundo os métodos de análise das interacções verbais, numerámos os turnos de fala de cada personagemAbóbora e Grilo – precedendo-as da respectiva inicial ([A1], [G1], etc.).
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